Objetivo: mapear as evidências científicas sobre a avaliação, percepção e intervenções direcionadas à autoestima em adolescentes com obesidade.
Método: revisão de escopo, cujo protocolo foi registrado na plataforma Open Science Framework com o identificador 10.17605/OSF.IO/C6W72. Foram incluídos estudos primários e secundários, disponíveis na íntegra, sem restrição temporal e de idioma, de oito bases de dados e literatura cinzenta. Cartas ao editor, estudos em fase de protocolo ou ainda sem resultados foram excluídos.
Resultados: foram selecionados 39 estudos para análise. A síntese de evidências sobre a avaliação, percepção e intervenções dos adolescentes com obesidade investigados indicou a baixa autoestima, a qual esteve relacionada ao sexo feminino, à vergonha corporal, à exposição à vitimização por pares, a sintomas depressivos e ao baixo desempenho escolar. As intervenções com potenciais resultados na melhora da autoestima estavam relacionadas à redução do peso, como práticas esportivas, programas educativos e apoio familiar.
Conclusão: existe uma relação complexa entre a obesidade em adolescentes e a baixa autoestima, tornando fundamental o estabelecimento de boas práticas alimentares e atividades físicas regulares, além do suporte emocional aos adolescentes considerando as dimensões biopsicossociais.
Descritores:
Adolescente; Autoimagem; Obesidade; Bem-Estar Psicológico; Enfermagem; Revisão
Destaques:
(1) Adolescentes com obesidade apresentam menor autoestima. (2) A baixa autoestima afeta o bem-estar físico e mental e as relações sociais. (3) O apoio familiar é um dos fatores que interferem na formação da autoestima. (4) Boas práticas alimentares e atividades físicas regulares favorecem a autoestima.
Objective: to map the scientific evidence regarding the assessment, perception, and interventions aimed at self-esteem in adolescents with obesity.
Method: a scoping review, whose protocol was registered on the Open Science Framework platform with the identifier 10.17605/OSF.IO/C6W72. Primary and secondary studies, available in full, without temporal or language restrictions, from eight databases and grey literature were included. Letters to the editor, studies in the protocol phase, or those without results were excluded.
Results: 39 studies were selected for analysis. The synthesis of evidence in the investigated adolescents with obesity indicated low self-esteem, which was associated with female sex, body shame, exposure to peer victimization, depressive symptoms, and poor school performance. Interventions with potential results in improving self-esteem were related to weight reduction, such as sports practices, educational programs, and family support.
Conclusion: there is a complex relationship between obesity in adolescents and low self-esteem, making it essential to establish good eating habits and regular physical activity, in addition to emotional support for adolescents considering the biopsychosocial dimensions.
Descriptors:
Adolescent; Self Concept; Obesity; Psychological Well-Being; Nursing; Review.
Highlights:
(1) Adolescents with obesity have lower self-esteem. (2) Low self-esteem affects physical and mental well-being and social relationships. (3) Family support is one of the factors that influence the formation of self-esteem. (4) Good eating habits and regular physical activity promote self-esteem.
Objetivo: mapear las evidencias científicas acerca de la evaluación, la percepción y las intervenciones dirigidas a la autoestima en adolescentes con obesidad.
Método: revisión de alcance, cuyo protocolo fue registrado en la plataforma Open Science Framework con el identificador 10.17605/OSF.IO/C6W72. Se incluyeron estudios primarios y secundarios, disponibles en texto completo, sin restricción temporal ni de idioma, de ocho bases de datos y literatura gris. Se excluyeron cartas al editor, estudios en fase de protocolo o aún sin resultados.
Resultados: se seleccionaron 39 estudios para el análisis. La síntesis de evidencias en los adolescentes con obesidad investigados indicó baja autoestima, la cual se asoció con el sexo femenino, la vergüenza corporal, la exposición a la victimización por pares, síntomas depresivos y bajo rendimiento escolar. Las intervenciones con potenciales resultados en la mejora de la autoestima se relacionaron con la reducción de peso, como prácticas deportivas, programas educativos y apoyo familiar.
Conclusión: existe una relación compleja entre la obesidad en adolescentes y la baja autoestima, lo que hace fundamental el establecimiento de buenas prácticas alimentarias y actividades físicas regulares, además del apoyo emocional a los adolescentes considerando las dimensiones biopsicosociales.
Descriptores:
Adolescente; Autoimagen; Obesidad; Bienestar Psicológico; Enfermería; Revisión
Destacados:
(1) Los adolescentes con obesidad presentan menor autoestima. (2) La baja autoestima afecta el bienestar físico y mental y las relaciones sociales. (3) El apoyo familiar es uno de los factores que influyen en la formación de la autoestima. (4) Las buenas prácticas alimentarias y las actividades físicas regulares favorecen la autoestima.
Introdução
A adolescência é geralmente considerada uma fase de transição, embora o indivíduo não seja visto como criança, ainda não é considerado um adulto. É justamente nesse período que o desenvolvimento humano ocorre de forma acelerada, seja em aspectos físicos, cognitivos, sociais, sexuais e emocionais1. Essas mudanças intensas podem contribuir para situações de riscos à saúde desse(a) adolescente e para o desenvolvimento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) como a obesidade, que é o acúmulo excessivo ou anormal de gordura corporal1-3.
Os adolescentes com obesidade lidam constantemente com fatores externos, como dificuldade de aceitação e inclusão em grupos, estigma social, bullying, que podem resultar em baixos níveis de autoestima, levando a um quadro de vulnerabilidade para transtornos alimentares, ansiedade, depressão e isolamento social4-5.
Diante do exposto, a autoestima dos adolescentes deve ser considerada como uma variável relevante para avaliar a saúde desses indivíduos, tendo em vista que está relacionada à construção da identidade e da adaptação ao meio, funcionando como um dos reguladores de bem-estar6-7.
Em uma pesquisa de base nacional com estudantes brasileiros de 12 a 17 anos, três em cada dez estudantes apresentam insatisfação com a imagem corporal, enquanto os adolescentes com obesidade são propensos à baixa autoestima e negligência em relação à autopercepção associada ao excesso de peso e riscos de comorbidades2.
Nessa vertente, a autoestima, definida como uma autoavaliação sobre si mesmo, sobre as próprias atitudes e a relação com os demais, interfere em como o indivíduo reage às mudanças internas e externas, além de atribuir valores e sentimentos favoráveis ou desfavoráveis que, quando negativos, repercutem na saúde do adolescente. Por outro lado, em níveis satisfatórios, podem influenciar na adoção de atitudes de promoção da saúde e proteção a comportamentos prejudiciais6,8-9.
A partir de uma busca prévia na literatura, foram identificados dois estudos sobre a relação entre obesidade e autoestima: uma revisão de escopo que mapeou os instrumentos existentes para mensurar a autoestima em crianças e adolescentes e uma revisão sistemática que avaliou se intervenções com multicomponentes teriam impacto na autoestima dos adolescentes10-11. Assim, o estudo se diferencia dos demais por abordar os aspectos referentes à percepção e conceitos dos adolescentes com obesidade diante da autoestima e como isso repercute na vida cotidiana, além de compreender a relação entre obesidade e autoestima como um fator de adoecimento ou protetivo.
Apesar do significativo número de estudos sobre a obesidade na adolescência em diferentes bases de dados, ainda existe uma lacuna em relação à autoestima, que é um fator importante no desenvolvimento pessoal e manutenção das condições de saúde.
Dessa forma, compreender a percepção dos adolescentes com obesidade pode fornecer evidências relevantes relacionadas à autoimagem, tendo em vista que a obesidade pode constituir um fator de risco para um autoconceito negativo, podendo ser um agravante para uma baixa autoestima. Além disso, as informações obtidas podem contribuir para o desenvolvimento de futuras pesquisas que possam direcionar intervenções com ênfase nas complexidades e na mitigação do estigma associado à obesidade e sua repercussão na saúde mental.
Este estudo teve como objetivo mapear as evidências científicas sobre a avaliação, percepção e intervenções direcionadas à autoestima em adolescentes com obesidade.
Método
Desenho do estudo
Estudo de revisão da literatura, do tipo revisão de escopo, conduzido de acordo com as etapas recomendadas pelo JBI: título e perguntas de revisão, critérios de inclusão, estratégia de busca, triagem e seleção de evidências, extração e análise de dados e apresentação dos resultados; e relatada utilizando as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Review (PRISMA-ScR)12-13.
O protocolo de revisão foi registrado no Open Science Framework (OSF) com identificador DOI 10.17605/OSF.IO/ C6W72. Anteriormente à elaboração do protocolo, os autores verificaram na literatura a existência de outras revisões com tema e objetivos semelhantes aos desta revisão. Foram encontradas duas revisões10-11, porém foram direcionadas aos instrumentos de avaliação da autoestima e a intervenções específicas, diferenciando-se dos objetivos do presente estudo.
Cenário
As bases de dados consultadas foram: Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Base de Dados de Enfermagem (BDENF), Índice Bibliográfico Espanhol em Ciências da Saúde (IBECS), Index Psicologia (INDEXPSI), via Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) via PubMed, Web of Science, Scopus e APA PsycInfo®.
A literatura cinzenta foi recuperada em fontes como Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), Catálogo de Teses e Dissertações (CTD) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Google Scholar (nas 10 primeiras páginas).
Período
A pesquisa foi realizada entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025.
População
O acrônimo PCC foi utilizado, sendo a População os adolescentes, caracterizados como indivíduos com idade entre 10 e 19 anos, conforme definição da Organização Mundial da Saúde (OMS). O Conceito adotado foi autoestima e o Contexto de interesse foi obesidade. A pergunta de revisão foi: quais as evidências disponíveis sobre a avaliação, percepção e intervenções direcionadas à autoestima em adolescentes com obesidade?
Critérios de seleção
Foram incluídos os estudos primários e secundários sobre autoestima em adolescentes com obesidade, tanto estudos que consideraram essas duas variáveis como principais quanto aqueles que analisaram diferentes variáveis, mas que verificaram autoestima em adolescentes com a comorbidade, primários e secundários, disponíveis na íntegra, sem restrição temporal e de idioma. Cartas ao editor, estudos em fase de protocolo ou ainda sem resultados foram excluídos.
Definição da amostra
Uma busca inicial sobre a temática de interesse foi realizada na literatura, com auxílio de uma bibliotecária. A partir dos estudos recuperados, realizou-se uma análise dos termos contidos no título, resumo, texto e descritores/palavras-chaves a fim de selecioná-los nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH). Esses termos foram combinados entre si, de forma a garantir o maior retorno da quantidade de estudos, estruturando as estratégias de busca específicas a cada base de dados, conforme a Figura 1. As estratégias foram testadas por cada uma das duas revisoras e pela bibliotecária, de forma independente, a fim de garantir o mesmo resultado em todas as buscas.
Coleta de dados
A busca, seleção e análise foi realizada de forma independente, às cegas, por duas revisoras, autoras do estudo, uma com titulação de Mestra em Ciências e Saúde e com conhecimento na área de Saúde da Criança e Adolescente e a outra Mestra em Enfermagem e com conhecimento na área de Saúde Mental, ambas com experiência na elaboração e publicação de revisões. As divergências quanto à inclusão ou não de determinado texto, após discussão entre as duas primeiras revisoras, foram resolvidas por uma terceira revisora, enfermeira Doutora em Enfermagem com conhecimento na área de Saúde Coletiva.
As citações identificadas foram importadas para o gerenciador de referências Rayyan®, desenvolvido pelo Qatar Computing Research Institute (QCRI) para retirada de duplicidades, seleção e triagem.
A primeira fase de seleção compreendeu a leitura de títulos e resumos. Estudos que atenderam aos critérios de inclusão foram analisados em uma segunda fase, via leitura dos manuscritos na íntegra. Os motivos para a exclusão dos estudos foram registrados e relatados em fluxograma14.
Variáveis do estudo
As variáveis extraídas dos estudos foram: autoria, país de origem, idioma, ano de publicação, objetivo, tipo de estudo, amostra, local da coleta de dados, instrumento de avaliação da autoestima, principais resultados e nível de evidência15.
Instrumento de coleta de dados
As informações foram mapeadas conforme recomendações do JBI para caracterização das fontes de evidência, registradas e organizadas em formato de quadro sinóptico elaborado no Microsoft Office Excel 2024.
Processamento e análise de dados
A análise dos dados foi realizada de forma descritiva, quantitativa e qualitativa. A síntese dos resultados foi apresentada de forma narrativa e por meio de figuras.
Aspectos éticos
O estudo utilizou dados secundários, portanto não houve apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP).
Resultados
Foram identificados 6860 estudos nas bases de dados, dos quais 2474 foram excluídos por duplicata e 4386 seguiram para leitura do título e resumo. Após a primeira leitura, 50 foram selecionados para leitura na íntegra, dos quais 36 foram incluídos na amostra final. A partir da literatura cinzenta, três estudos foram incluídos. Assim, 39 estudos compuseram a amostra final da revisão (Figura 2).
A Figura 3 mostra a descrição dos estudos segundo o país de origem, ano de publicação, idioma, tipo de estudo, nível de evidência, amostra, local e instrumento de avaliação da autoestima.
Quanto ao país de origem dos estudos, nove foram realizados nos Estados Unidos da América23,25,34,41,43-46,53, quatro no Chile17,27-28,31 e Reino Unido20-21,37,50, três na Espanha29,39-40, dois no Brasil16,33, França48,52, Irã26,42, Suécia47,51 e Turquia19,49 e um na Arábia Saudita35, Austrália11, Canadá38, China22, Egito30, Índia32, Itália36, Grécia24 e Marrocos18. Um mapa representativo dos países de origem das publicações (Figura 4).
Referente ao ano de publicação, quatro foram publicados em 201711,32-34, três em 202416-18, 202024-26, 201829-31, 201635-37, 201538-40, e 201046-48, dois em 202319-20, 202122-23, 201927-28, 201431,42) e 201243-44, um em 202221, 201145, 200449, 200350, 199951, 199552 e 198853. Quanto ao idioma, a maioria dos estudos foi publicada em inglês11,16,18-26,28-29,31-32,34,36-38,41-47,49-53, seguindo por espanhol17,27,20,39-40, português33, árabe35 e francês48.
Os tipos de estudos desenvolvidos foram transversais17-18,21,23-33,39-40,42,44,52-53, caso-controle19,22,36,41,43,50,52, coorte20,34,36,46-48, ensaios clínicos randomizados controlados16,38-39,49,51 e uma revisão sistemática11, com amostra variando entre 1648 e 1881820 adolescentes. O nível de evidência foi classificado, de forma que se identificaram estudos de nível VI17-18,21,23-33,39-40,42,44,52-53, IV19-20,22,34,36,41,43,46-48,50,52, II16,38-39,49,51) e I11. Os estudos foram realizados em diferentes cenários como acampamento50, centros comunitários25, centro de estudos26, centros educacionais públicos29, escolas11,17-18,22-24,27-28,30-33,35-36,40-43,45,47,49,51,53, hospitais33,39,44,48,52, instalações comunitárias38, remoto46, residências11,21,37 e universidade19, sendo que em um deles não foi especificado20.
Os instrumentos Autoestima Global de Marsh11, Escala de Autoestima de Rosenberg11,16-21,25-26,28,30,32-33,36,40,41,45,49,53 e versão modificada23, Escala de Estereótipo Corporal para Adolescentes e Adultos22, Escala Geral de Autoestima41, Inventário de Autoestima Coopersmith27,42,44,52, Inventário Físico de Si Mesmo48, Perfil de Autoestima de Harter para Crianças46, Perfil de Autopercepção de Harter para Crianças11, Perfil de Autopercepção Física para Crianças38, Perfil de Autopercepção Física para Crianças e Adolescentes47, Perfil de Autopercepção para Adolescentes34, Perfil de Autopercepção para Crianças24,37,50, Perfil de Saúde e Doença Infantil39, Questionário Eu Penso, Eu Sou51, Questionário de Relações Multidimensionais Corpo-Eu42, Subescala Harter de Autoestima Global38 e TAE-student: teste de autoestima escolar29-31 foram utilizados para avaliar a autoestima entre os participantes.
Os estudos identificaram que a obesidade e o aumento do Índice de Massa Corporal (IMC) influenciam na baixa autoestima entre adolescentes, destacando essa prevalência entre o sexo feminino11,17-24,27-30,33,39-43,45-47,51-53. Aponta-se que a baixa autoestima contribui para a vergonha corporal22,36, um dos preditores para Transtornos Alimentares, bem como sofre influência da exposição à vitimização por pares41,44, reflete em impactos negativos na saúde mental e no bem-estar19-21,26,32,41,43,48-49 e desempenho escolar27,34,35. Destaca-se a necessidade de intervenções para a promoção da autoestima nesse público, como a prática esportiva e de atividade física e a importância do apoio familiar16,25-26,37-38,40,50. Os objetivos e principais resultados dos estudos são descritos na Figura 5.
Discussão
O mapeamento dos estudos permitiu identificar como se caracteriza a autoestima entre adolescentes com obesidade, seu impacto e intervenções possíveis para melhoria. A maioria dos estudos aponta que o diagnóstico de obesidade entre adolescentes está relacionado a uma menor autoestima11,17-19,21,24,27,31,41-43,51. A relação entre autoestima e o IMC foi examinada em diferentes investigações que revelaram uma correlação negativa e significativa, sugerindo que à medida que o IMC aumenta, a autoestima diminui20,30,32. Uma relação inversa também pode ser observada na literatura, indicando que apresentar baixa autoestima é um dos principais fatores que contribuem para obesidade e afeta seu tratamento19,54.
A obesidade reflete em uma menor autoestima pois pode influenciar de forma negativa na autopercepção durante a adolescência, principalmente entre o sexo feminino18,22-23,28-29,33,39-40,45-46,52-53. Essa diferença entre os gêneros é influenciada por fatores socioculturais, familiares e experiências individuais. A mídia, os padrões de beleza considerados aceitáveis, as expectativas sociais e as pressões acadêmicas podem impactar a autoestima de forma distinta, o que contribui para a formação de identidades e autopercepções únicas entre os sexos55.
A baixa autoestima está associada à insatisfação com a vida, problemas familiares, menor apoio social percebido, saúde emocional e bem-estar negativos e transtornos mentais, como depressão e ansiedade, considerada um preditor de maiores taxas de suicídio nesse grupo23,32,41,43,49,56-57. Outro ponto é que sintomas de ansiedade e depressão, comuns na obesidade, contribuem na diminuição dos níveis de autoestima19-20,45. Destaca-se que a influência da imagem corporal, aceitação social e deterioração do humor é maior no sexo feminino, fato que o torna mais vulnerável aos transtornos psicossociais58-59.
A baixa autoestima entre adolescentes com obesidade também pode ser considerada um fator de risco para manifestações clínicas de Transtornos Alimentares, principalmente entre mulheres, pois a busca pelo corpo considerado “ideal” pode levar à adoção de comportamentos alimentares inadequados22. A baixa autoestima também influencia diretamente na vergonha corporal, que por sua vez, é um preditor de risco para psicopatologias alimentares36.
O preconceito contra a obesidade e as provocações quanto ao peso são comuns no meio social41. Há evidências de que ser obeso é identificado como uma das condições menos aceitáveis socialmente e possivelmente mais estigmatizante, principalmente na infância e adolescência60. Níveis de autoestima de crianças com obesidade diminuem com a idade e as dificuldades psicossociais tornam-se mais pronunciadas à medida que crescem e entram na adolescência, pois adolescentes com obesidade são mais propensos a sofrer provocações de seus pares, o que pode levar à marginalização social24,61.
A exposição a provocações relacionadas ao peso, intimidação ou vitimização também contribuem para o desenvolvimento de problemas psicológicos e emocionais, que levam a um baixo desempenho escolar27,34-35. Também foi relatado que o desempenho escolar é influenciado pelo excesso de peso ou o absenteísmo dos estudantes com obesidade devido aos problemas de saúde que podem enfrentar24. Diferentes explicações foram sugeridas para a associação negativa entre IMC e desempenho acadêmico e uma delas inclui o impacto negativo na autoestima35.
Apesar desta revisão destacar a relação negativa entre obesidade e autoestima, esta última, quando avaliada positivamente está relacionada a melhores condições de bem-estar e saúde mental, autopercepções positivas, realizações acadêmicas e persistência31. Isso reforça a importância da prevenção e controle da obesidade ainda na infância, bem como estratégias de aconselhamento para ajudar no controle do excesso de peso entre adolescentes46.
Estudos mostram que adolescentes com melhor desempenho escolar e com participação em esportes coletivos apresentam menor risco de baixa autoestima, destacando uma oportunidade de incentivo para o desenvolvimento de programas esportivos escolares e comunitários que colaborem com a prevenção da obesidade e promoção de melhor autoestima21,31,46. Indivíduos com maior autoestima também se sentem mais motivados a praticar atividade física18,21,62.
Práticas esportivas, como o Muay Thai, foram aplicadas como intervenção para melhoria da autoestima entre adolescentes com obesidade16. Essas práticas trazem contribuições não apenas para a saúde física e psíquica, mas também favorecem as competências sociais63. Um estudo que ofereceu um programa de Karatê com duração de mais de dez semanas, para crianças e adolescentes com epilepsia, mostrou melhorias na autoestima dos praticantes64. Outro analisou a autoestima, autoconfiança e ansiedade cognitiva e somática em adultos praticantes e não praticantes de Jiu-Jitsu, e observou que os praticantes apresentaram maiores níveis de autoestima e autoconfiança65.
Os treinamentos de aeróbica e de resistência e a combinação de ambos mostraram efeitos positivos na saúde psicológica de adolescentes com obesidade. Verificou-se que a prática, em uma frequência de pelo menos seis meses, resultou em melhorias na autoestima global e física. Fatores associados ao efeito do treinamento são sugestivos ao potencial de remodelação do corpo e melhorias no tamanho corporal, forma e tônus muscular, além da redução do IMC38.
As intervenções realizadas em acampamentos apresentaram potenciais efeitos na autoestima global dos adolescentes, isso se deve à combinação de atividades desenvolvidas, com ênfase nos aspectos nutricionais, físicos e emocionais, preditor associado a melhoras no nível de autoestima também foi a redução do peso. Em um dos estudos que utilizou a intervenção na ambientação de acampamento, os participantes tiveram em média uma redução do peso em 5,6 kg50.
Ademais, intervenções com ambientação de acampamento também obtiveram melhoras significativas na autoestima global dos adolescentes com obesidade, mesmo quando não havia a redução significativa de peso aparente, o que pode estar associado à autoeficácia, como a prática de exercício regular e um ambiente de apoio que podem favorecer o desenvolvimento de competências e maiores interações sociais, estabelecendo novas amizades ou estando em um ambiente menos vulnerável às experiências associadas ao estigma e à vitimização37.
As intervenções de cunho educacional apresentam múltiplos benefícios, isso ocorre devido à natureza dessas intervenções, de explorar diferentes habilidades como aprendizagem, comportamentos e atitudes, possibilitando modificações e reflexões acerca da autoestima, afastando os estigmas, provocações dos colegas e padrões estéticos socialmente definidos, aproximando-os de crenças e valores congruentes à autovalorização e autoconfiança em si mesmo. Cabe ressaltar que o período da intervenção é fundamental para garantir os potenciais efeitos. A aplicação de um programa educacional no período de 12 meses foi capaz de identificar melhorias na satisfação corporal, mudanças de atitudes e percepção relacionados à autoestima40.
Reforça-se também a importância das intervenções baseadas no familismo, na qual, em estudo realizado com adolescentes latinos com obesidade, a relação familiar representou um fator de proteção para a autoestima e, consequentemente, associado ao bem-estar geral. Famílias estruturadas e estáveis podem proporcionar ao adolescente uma visão mais abrangente sobre suas qualidades e valores que vão além do peso e aparência física, fornecendo uma rede apoio e competências para desenvolver relacionamentos interpessoais com mais facilidade e engajar-se em atividades alinhadas aos seus objetivos25.
O período da infância desempenha um papel importante na formação da autoestima de crianças e adolescentes. Cuidadores sensíveis e solidários contribuem para a formação do apego em crianças. À medida que recebem feedbacks positivos, formam um autoconceito positivo, o que as tornam mais seguras e com melhor autoestima26. A autoestima formada durante a infância pode continuar durante a adolescência. Assim, a família é um dos fatores mais importantes que influenciam a autoestima dos adolescentes, especialmente entre as meninas66.
Uma revisão sistemática identificada apontou que as intervenções com multicomponentes tais como alimentação, educação e atividade física mostraram benefícios na melhora da autoestima, apesar da relação entre autoestima e obesidade não estar totalmente esclarecida. A adoção dessas estratégias, com foco na autoestima do adolescente, pode ser eficiente para redução do IMC e melhora na qualidade de vida desses indivíduos. Quanto aos instrumentos utilizados para avaliação da autoestima, foram identificados dois diferentes tipos de instrumentos, dentre eles: Escala de Autoestima de Rosenberg e o Perfil de Autopercepção de Harter para Crianças/Adolescentes11.
Tais dados corroboram com os encontrados nesta revisão, em que a avaliação da autoestima foi realizada de forma quantitativa, apoiando-se no uso de instrumentos validados, sendo o mais utilizado a Escala de Autoestima de Rosenberg11,16-21,25-26,30,32-34,40-41,45,49,53. As versões validadas e adaptadas para os idiomas português33 e espanhol17 também foram utilizadas. Em seguida, tem-se o Inventário de Autoestima Coopersmith, que avalia a autoestima em diferentes áreas, familiar, acadêmica, social e geral27,41,44,52; e a escala Perfil de Autopercepção de Harter para Crianças/Adolescentes, que avalia de forma mais detalhada os aspectos da vida dos indivíduos quanto à dimensão global da autoestima em diferentes dimensões ou domínio da vida11,38.
A variedade de instrumentos identificados na síntese de resultados realça a complexidade da avaliação da autoestima, bem como a investigação desse conceito em diferentes aspectos do indivíduo, seja em abordagens mais abrangentes como autoestima global ou em componentes específicos dentro da autoestima e como estes se relacionam e impactam a nível psicológico e social na vida das pessoas, incluindo adolescentes.
Os estudos transversais foram amplamente utilizados para avaliar a autoestima entre os adolescentes e correlacioná-la a outras variáveis17-18,21,23-33,39-40,42,44,52-53. Esse tipo de estudo é útil para determinar a prevalência de uma condição de interesse sobre uma população em um determinado período de tempo, identificar associações, gerar hipóteses para investigações futuras e contribuir no planejamento de intervenções. Entretanto, apresenta fragilidades, como não permitir estabelecer relações de causalidade e análise da evolução de um determinado constructo ao longo do tempo. Ademais, é suscetível a vieses de seleção pois a amostra da população de interesse pode não ser representativa, comprometendo a generalização dos resultados67.
Ademais, o papel das equipes de saúde é fundamental para o rastreio e identificação precoce de adolescentes com altos níveis de estresse e baixa autoestima. Para isso, esses profissionais podem atuar através de programas de promoção da saúde da escola, tendo em vista que este é um ambiente de acesso aos adolescentes, podendo utilizar de instrumentos confiáveis e validados, exames de saúde mental, além de projetos de aconselhamento e integração escolar23,43.
Nesse ponto, destaca-se que a multidisciplinaridade da equipe é algo essencial para construção de uma rede de apoio aos adolescentes com obesidade, onde cada profissional desempenha um papel-chave. A equipe pode ser constituída por pais, professores, assistentes sociais, conselheiros e psicólogos estabelecendo uma força-tarefa capaz de promover um ambiente de apoio que permita aos adolescentes desenvolverem habilidades, competências e confiança para explorar questões de saúde mental, obesidade e autoestima22-23,43,45.
Vale ressaltar que os enfermeiros estão em uma posição favorável, pois, no que tange à promoção da saúde na escola, é esse profissional que estabelece uma comunicação prévia com professores, pais, alunos e outros funcionários. Ao observar e conversar com os adolescentes é possível identificar sinais de cansaço, humor depressivo, desânimo, que podem alertar os enfermeiros sobre a necessidade de encaminhamento desse adolescente para uma avaliação mais completa com outros profissionais de saúde mental36,41,43.
Outro ponto importante é que os profissionais de saúde precisam estar cientes dos efeitos da baixa autoestima na saúde mental dos adolescentes com obesidade, tendo em vista que as intervenções precoces e outras abordagens terapêuticas geralmente têm como foco o peso corporal, entretanto também devem estar alinhadas à autoestima que influencia tanto no bem-estar do adolescente como na presença de sofrimento psíquico23,45.
Como limitação desta revisão, destaca-se a abordagem utilizada pelos estudos incluídos. Apesar do uso de instrumentos validados para mensuração da autoestima entre adolescentes com obesidade, é importante destacar que a autoestima é um conceito complexo, influenciado por diferentes variáveis e contextos, os quais devem ser considerados para uma avaliação mais abrangente. Outra limitação refere-se ao fato de que em alguns estudos a autoestima foi avaliada apenas no momento da aplicação da intervenção, sendo necessário realizar avaliações pós-intervenção, já que a autoestima pode variar ao longo do tempo e ser afetada por múltiplos fatores.
Os achados deste estudo contribuem para avanços na área da Enfermagem ao aprofundar a compreensão sobre a autoestima de adolescentes com obesidade. Além disso, a identificação dos fatores associados à baixa autoestima e as vulnerabilidades presentes nesse grupo, principalmente a influência dos padrões sociais impostos ao sexo feminino requer preparo e olhar atento deste profissional. Ainda, destaca-se o papel do Enfermeiro de educador em saúde ao orientar potenciais intervenções para a promoção da autoestima, considerando que melhorias nesse aspecto impactam diretamente no bem-estar. O estudo colabora com evidências para a prática clínica e estratégias de cuidado holístico e multiprofissional mais eficazes e sensíveis ao contexto psicossocial do adolescente.
Conclusão
A adolescência é um período de mudanças no qual ocorrem oscilações psicológicas, seja atreladas ao humor, seja às emoções ou à estima. Quando associadas a problemas de saúde, essas alterações podem ocorrer de forma mais intensa, resultando em impactos negativos sobre a saúde mental.
Os resultados de alguns estudos incluídos na revisão indicam que a obesidade em adolescentes favorece a baixa autoestima, sendo que, em alguns casos, foi considerada um preditor para o aumento do IMC. Diante disso, destaca-se que a baixa autoestima é frequentemente identificada entre o público feminino, fator que pode ter relação com as pressões sociais e influências dos pares e das mídias quanto aos padrões de beleza impostos e aceitos pela sociedade.
A baixa autoestima afeta diferentes dimensões da vida do adolescente com obesidade, tais como física, mental e social. Além disso, amplia as vulnerabilidades a Transtornos Mentais e Alimentares, contribuindo, em casos mais graves, para o risco de comportamentos suicidas.
Destaca-se que intervenções a nível escolar e no cotidiano dos adolescentes, pautadas na reeducação de hábitos sedentários, atividade física e esportivas, bem como na ênfase sobre os aspectos emocionais e no desenvolvimento de competências e habilidades apresentam-se como potenciais para a melhoria da autoestima. O papel da família é essencial, oferecendo apoio e servindo como exemplo de valorização da singularidade do adolescente, percebendo-o além do diagnóstico de obesidade, considerando suas necessidades, gostos, qualidades e expectativas.
Sugere-se a realização novos estudos, principalmente de abordagem qualitativa, que explorem com maior profundidade e complexidade a percepção de adolescentes com obesidade em relação à autoestima, considerando as dimensões biopsicossociais desse público. O investimento em pesquisas na área favorece o desenvolvimento de estratégias de intervenção que busquem a promoção da saúde e do bem-estar dos adolescentes.
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado.
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O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) - Código de Financiamento 001, Brasil.
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Como citar este artigo:
Silva CO, Barbosa NS, Machado ALG, Ribeiro IAP, Santos AMR, Fernandes MA. Self-esteem in adolescents with obesity: a scoping review. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4888 [cited ano mês dia ]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7936.4888
Editado por
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Editora Associada:
Maria Lúcia Zanetti



*BVS = Biblioteca Virtual em Saúde; †MEDLINE = Medical Literature Analysis and Retrieval System Online; ‡APA = American Psychological Association; §BDTD = Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações; ǁCTD-CAPES = Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
