Em editorial pregresso da RLAE( 1 ) é destacado, de maneira muito apropriada, a importância da produção do conhecimento no contexto das doenças crônicas. A literatura, assim como os documentos oficiais de vários organismos de saúde, confirmam que esta preocupação é muito atual. A magnitude das doenças não transmissíveis continua aumentando, levando líderes mundiais a colocarem tais doenças como prioridade nas agendas de desenvolvimento, por reconhecerem-nas como grande ameaça à saúde, economias e sociedades( 2 ).
Muitos desafios se impõem com o crescimento das doenças crônicas. O primeiro reporta-se à heterogeneidade da transição epidemiológica, observada nas diferentes populações. Além da diferença observada no perfil dos fatores de risco( 3 ), muitos países com rendas baixa e média experimentam a coexistência das consequências dos fenômenos mundiais de envelhecimento/globalização/urbanização e impacto das doenças transmissíveis ainda elevado. As tendências projetadas provocam profunda preocupação, especialmente com estas populações, que grandemente atingidas, dispõem de menos recursos para enfrentamento do problema( 2 ).
Outro desafio concerne à longa duração do curso natural, assim como a complexidade e o percurso irregular da evolução das doenças crônicas, que raramente ocorrem de maneira isolada. Este padrão peculiar impõe, necessariamente, o paradigma de continuidade de cuidados e de serviços de saúde, assim como a implementação de intervenções complexas, mas mostrando-se difícil de ser efetivado como prática. A acessibilidade aos serviços e cuidados é ainda limitada, assim como o estabelecimento da continuidade e padronização da assistência. E ainda muito importante, há evidente carência de integração de intervenções, cuja eficiência e eficácia tenham sido comprovadas, não somente no controle da doença e limitação da incapacidade funcional, mas na promoção da qualidade de vida.
Este editorial pretende alertar sobre a importância da ampla contribuição do enfermeiro para a otimização da qualidade dos serviços e de cuidados, no contexto das doenças crônicas. De fato, pode-se dizer que o enfermeiro é um dos profissionais, senão o profissional de saúde, mais interpelado nesse contexto, nas mais diversas culturas, uma vez que: 1) a enfermagem constitui a maior força de trabalho em saúde, estando na linha de frente do contato direto com paciente-família-comunidade; 2) o enfermeiro é, por excelência, o profissional formado para assegurar o continuum do cuidado de saúde, visando a passagem adequada por todos os setores de saúde - do primário ao quaternário e vice-versa; e 3) o enfermeiro é formado para lidar com todas as esferas que compõem o bem-estar no continuum de saúde: aspectos físicos/clínicos, emocionais, sociais, cognitivos e espirituais, considerando a singularidade da experiência do indivíduo ao longo do processo saúde-doença e ao mesmo tempo sua inserção na sociedade.
A contribuição do enfermeiro no contexto das doenças crônicas depende primeiramente de uma sólida formação, que favoreça o exercício de um julgamento clínico consistente, aprofundada e abrangente. Depende também de sua capacidade em propor e avaliar intervenções inovadoras, visando prevenção ou estabilização das doenças crônicas. Mas para que isso seja possível, faz-se necessário o crescimento de pesquisas em intervenção em enfermagem, baseadas em modelos teórico-metodológicos, permitindo a identificação daquelas com maior eficiência e eficácia, considerando-se como desfecho a avaliação da qualidade de vida. É necessário que as pesquisas em intervenção em enfermagem evoluam em complexidade e abrangência, visando cada vez mais a abordagem do indivíduo como um ser indivisível e não fragmentado pelas diferentes comorbidades e fatores de risco que apresenta. Pesquisas ao longo do continuum do cuidado são também fundamentais, considerando-se os complexos períodos de transição que marcam a evolução do paciente que vive com uma doença crônica.
Finalmente, é imprescindível a interlocução entre pesquisa e prática, possibilitando tradução e implementação dos resultados da pesquisa em enfermagem em prática clínica efetiva. O único caminho que torna possível a transferência do conhecimento em prática é a sólida parceria entre os enfermeiros que atuam na prática clínica, nos serviços de gestão em diferentes níveis e no meio acadêmico. Nos diferentes domínios de atuação, é fundamental que o enfermeiro exerça sua liderança( 4 ), baseada em habilidades de negociação e sobretudo em conhecimento.
Em conclusão, os desafios enfrentados pelo enfermeiro no século XXI, na abordagem das doenças crônicas, remetem à necessidade de um novo paradigma de cuidado, de pesquisa em intervenção e das relações intraprofissionais.
Referências bibliográficas
- 1 Lima RAG. Chronic conditions and the challenges for knowledge production in health. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2013;21(5):1011-2.
- 2 Miranda JJ, Herrera VM, Chirinos JA, Gómez LF, Perel P, Pichardo R, et al. Major cardiovascular risk factors in Latin America: a comparison with the United States. The Latin American Consortium of Studies in Obesity (LASO). PLoS One. 2013;8(1):e54056.
- 3 World Health Organization. Global status report on noncommunicable diseases. Geneva: WHO; 2014.
- 4 Hader R The changing face of chronic illness. Nurs Manage. 2012;43(1):6.