RESUMO
Objetivo: validar o conteúdo e a aparência, e avaliar a usabilidade de um jogo sério para orientação de pacientes cirúrgicos no preparo pré-operatório.
Método: estudo metodológico, de produção tecnológica e natureza quantitativa, realizado entre agosto de 2024 e setembro de 2025, em Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. A coleta de dados foi conduzida em três etapas: (1) concepção e desenvolvimento do protótipo, (2) validação de conteúdo e aparência do jogo sério por especialistas em enfermagem perioperatória e (3) avaliação da usabilidade realizada por estudantes de enfermagem, em contexto acadêmico, por meio da System Usability Scale. A análise considerou estatística descritiva, índice de validade de conteúdo e escore médio de usabilidade.
Resultados: O jogo sério foi validado por 13 enfermeiros especialistas obtendo índice de validade de conteúdo médio de 0,9. Na avaliação da usabilidade, participaram 24 estudantes de enfermagem, e o escore médio obtido foi de 75,2 pontos na System Usability Scale, classificado como ‘bom’. Foram sugeridos ajustes visuais e textuais para facilitar o uso por pacientes com menor familiaridade com a linguagem escrita.
Conclusão: O jogo sério validado demonstra potencial de uso como estratégia acessível para a orientação de pacientes no preparo pré-operatório, contribuindo para a promoção da segurança e ampliando as possibilidades de uso de tecnologias educacionais no contexto da enfermagem perioperatória.
DESCRITORES:
Enfermagem perioperatória; Segurança do paciente; Tecnologia educacional; Gamificação; Educação em saúde; Cuidados Pré-Operatórios; Enfermagem
ABSTRACT
Objective: To validate the content and appearance, and assess the usability of a serious game for guiding surgical patients in preoperative preparation.
Method: This is a methodological, technological production, and quantitative study conducted between August 2024 and September 2025 in Florianópolis, Santa Catarina, Brazil. Data collection was carried out in three stages: (1) prototype conception and development; (2) serious game content and appearance validity by perioperative nursing specialists; and (3) usability assessment performed by nursing students in an academic context using the System Usability Scale. The analysis considered descriptive statistics, Content Validity Index, and mean usability score.
Results: The serious game was validated by 13 specialist nurses, obtaining a mean Content Validity Index of 0.9. In the usability assessment, 24 nursing students participated, and the mean score obtained was 75.2 points on the System Usability Scale, classified as “good”. Visual and textual adjustments were suggested to facilitate use by patients with less familiarity with written language.
Conclusion: The validated serious game demonstrates potential for use as an accessible strategy for guiding patients in preoperative preparation, contributing to the promotion of safety and expanding the possibilities for the use of educational technologies in perioperative nursing.
DESCRIPTORS:
Perioperative Nursing; Patient Safety; Educational Technology; Gamification; Health Education; Preoperative Care; Nursing
RESUMEN
Objetivo: Validar el contenido y la apariencia, y evaluar la usabilidad de un juego serio para guiar a pacientes quirúrgicos en la preparación preoperatoria.
Método: Estudio metodológico, de producción tecnológica y naturaleza cuantitativa, realizado entre agosto de 2024 y septiembre de 2025 en Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. La recolección de datos se llevó a cabo en tres etapas: (1) concepción y desarrollo del prototipo; (2) validación del contenido y la apariencia del juego serio por especialistas en enfermería perioperatoria; y (3) evaluación de la usabilidad realizada por estudiantes de enfermería, en un contexto académico, utilizando la System Usability Scale. El análisis consideró estadística descriptiva, Índice de Validez de Contenido y puntuación promedio de usabilidad.
Resultados: El juego serio fue validado por 13 enfermeras especialistas, obteniendo un Índice de Validez de Contenido promedio de 0,9. En la evaluación de usabilidad participaron 24 estudiantes de enfermería, y la puntuación promedio obtenida fue de 75,2 puntos en la System Usability Scale, clasificada como “buena”. Se sugirieron ajustes visuales y textuales para facilitar su uso a pacientes con menor familiaridad con el lenguaje escrito.
Conclusión: El juego serio validado demuestra potencial como estrategia accesible para guiar a los pacientes en la preparación preoperatoria, contribuyendo a la promoción de la seguridad y ampliando las posibilidades de uso de tecnologías educativas en el contexto de la enfermería perioperatoria.
DESCRIPTORES:
Enfermería Perioperatoria; Seguridad del Paciente; Tecnología Educacional; Gamificación; Educación en Salud; Cuidados Preoperatorios; Enfermería
INTRODUÇÃO
O preparo pré-operatório é um aspecto fundamental para garantir a segurança do paciente durante o período perioperatório. Diferentes fatores físicos, emocionais e informativos podem impactar a experiência do paciente nesse momento, tornando essencial uma abordagem cuidadosa e individualizada1. Entre esses fatores, destaca-se a ansiedade, uma reação humana comum que pode ser identificada diante de procedimentos cirúrgicos, independente de sua complexidade, provocando medo e nervosismo nos pacientes1. Nesse cenário, orientações claras, acessíveis e compreensíveis são essenciais para minimizar riscos, reduzir a ansiedade e promover uma experiência cirúrgica mais segura.
A fragilidade nas orientações ou a falta de espaço para esclarecimento de dúvidas podem comprometer o preparo do paciente que, por vezes, pode agravar o estado emocional e impactar diretamente nos desfechos cirúrgicos2. Pacientes bem informados tendem a apresentar menos ansiedade, mais autonomia e recuperação mais rápida2. Cabe à equipe de saúde garantir que o paciente e sua família compreendam adequadamente as etapas pré-operatórias, como jejum, higiene corporal, uso de medicamentos, tipo de anestesia e possíveis intercorrências no período pós-operatório, dentre outros aspectos1,3.
Assim, compreende-se como fundamental esclarecer possíveis intercorrências e limitações durante e após a cirurgia, como o uso de cateteres, monitorização cardíaca, presença de dor e os processos de recuperação na sala de recuperação pós-anestésica e na internação cirúrgica1. Frente a este cenário, a atuação do enfermeiro envolve não apenas a transmissão de informações, mas também o incentivo à participação ativa do paciente, priorizando a segurança e a autonomia no processo de cuidado.4 A participação conjunta favorece a compreensão dos procedimentos, o gerenciamento de riscos e o comprometimento com as orientações fornecidas2.
Diante da complexidade do processo cirúrgico, as tecnologias educacionais configuram-se como recursos complementares às orientações verbais, oferecendo aos pacientes meios adicionais de consulta e reforço das informações, por meio da mediação tecnológica do conhecimento5. Tais ferramentas, quando acessíveis, têm potencial para influenciar comportamentos relacionados à promoção da saúde, contribuindo para a internalização de condutas e para o fortalecimento de vínculo com os profissionais de saúde5.
A utilização de materiais educativos impressos, audiovisuais ou digitais no contexto da preparação cirúrgica viabiliza múltiplas formas de mediação pedagógica, ao passo que favorece o desenvolvimento de competências relacionadas à autonomia e à corresponsabilização do paciente6. Tais recursos educacionas também subsidiam o planejamento das ações de enfermagem, promovendo a qualificação da assistência e o aprimoramento da gestão do cuidado7. Entre os recursos disponíveis, destacam-se os jogos educativos, como os jogos sérios de baixo custo, que se apresentam como estratégias interativas para o engajamento do paciente no processo educativo. Esses jogos aproximam o conteúdo da realidade experienciada pelo usuário, contribuem para a retenção do conhecimento e oferecem suporte continuado ao longo da trajetória cirúrgica5. Sua adoção também responde à necessidade de diversificação metodológica, atendendo a diferentes perfis de aprendizagem e ampliando o repertório de tecnologias educacionais aplicadas à saúde.
A relevância deste estudo está ancorada na necessidade de qualificar o processo de orientação pré-operatória por meio de uma tecnologia educacional validada. O fortalecimento das estratégias educativas para as orientações do preparo cirúrgico não apenas favorece a segurança do paciente, mas também pode impactar positivamente sua experiência como um todo. A oferta estruturada de orientações pré-operatórias cria bases para uma comunicação mais clara entre pacientes e profissionais de saúde, fortalecendo um cuidado colaborativo e centrado nas necessidades do paciente. Portanto, este estudo teve como objetivo validar o conteúdo e a aparência, e avaliar a usabilidade de um jogo sério para orientação de pacientes cirúrgicos no preparo pré-operatório.
MÉTODO
Estudo metodológico, com abordagem quantitativa, realizado entre agosto de 2024 e setembro de 2025, voltado à avaliação de uma tecnologia educacional em formato de jogo sério para orientação pré-operatória de pacientes cirúrgicos. O estudo foi conduzido em três etapas: (1) concepção e desenvolvimento do protótipo do jogo; (2) validação de conteúdo e aparência por especialistas da área da saúde; e (3) avaliação da usabilidade por estudantes de graduação em enfermagem.
A construção do protótipo do jogo fundamentou-se em uma revisão narrativa da literatura sobre recomendações de enfermagem no preparo cirúrgico. A busca incluiu publicações nacionais e internacionais indexadas nas bases PubMed, Scopus, Web of Science e Biblioteca Virtual em Saúde, além de diretrizes institucionais e documentos técnicos da área de enfermagem perioperatória. O conteúdo selecionado subsidiou a definição dos temas abordados no jogo e as orientações educativas incorporadas ao jogo. O desenvolvimento da tecnologia seguiu o modelo Hexa-Tau, que compreende as fases de definição de objetivos, tipo de jogo, mecânica, aplicação, construção e testagem.8
O jogo sério (Figura 1) foi concebido em formato de trilha, com 17 casas e linguagem visual e textual, contemplando temas como jejum, preparo da pele, uso de medicamentos e outras orientações pré-operatórias. Planejado para impressão em papel A4, inclui a face posterior do jogo, com espaço para personalização com informações do paciente e do procedimento cirúrgico. Essa personalização possibilita que o paciente revise as orientações a qualquer momento. Além disso, foi elaborado um manual com instruções sobre a estrutura do jogo e diretrizes para sua utilização pelo enfermeiro na orientação pré-operatória. O protótipo gráfico do jogo foi realizado na plataforma online de design Canva®. O jogo sério foi intitulado 'Preparação Pré-operatória' em sua primeira versão, em alusão às etapas do preparo do paciente cirúrgico. O conteúdo integral da Figura 1 (protótipo do jogo utilizado no processo de validação) pode ser visualizado em: https://canva.link/validacao-jogo-do-preparo-cirurgico.
Face anterior e posterior do jogo sério para orientação pré-operatória de pacientes cirúrgicos, versão utilizada no processo de validação.
A validação de conteúdo foi conduzida de forma online, com profissionais de saúde atuantes em serviços cirúrgicos e docentes de diferentes regiões do Brasil. Foram convidados especialistas, conforme critérios de inclusão: ser enfermeiro atuante na assistência ou docência em centro cirúrgico; possuir titulação de mestrado e/ou doutorado, ter publicações na área e experiência mínima de um ano na assistência cirúrgica; responder ao convite em até 15 dias. Foram excluídos os profissionais que não retornaram o instrumento no prazo estabelecido. A identificação dos especialistas foi realizada por meio de busca na Plataforma Lattes, com base nos critérios de inclusão previamente definidos. O primeiro participante selecionado a partir dessa busca foi convidado por e-mail institucional. Utilizou-se a técnica de amostragem em bola de neve para a indicação e inclusão dos demais especialistas, configurando-se uma amostragem não probabilística, por acessibilidade e em rede. Estimou-se a participação de 10 a 20 especialistas, considerando os preceitos de Pasquali para estudos de validação de conteúdo.9 Foram convidados 68 especialistas, dos quais 13 responderam o formulário de coleta de dados, compondo a amostra final do estudo.
Os dados de validação foram obtidos por meio de questionário eletrônico estruturado, de elaboração própria, aplicado individualmente via Google Forms®. O instrumento contemplou a caracterização dos participantes (gênero, idade, tempo de atuação) e 32 itens avaliativos distribuídos em seis dimensões: objetividade, organização e regras, conteudo, imagens e layout, relevância e precisão da redação. Utilizou-se escala Likert de cinco pontos, e os participantes que atribuíram escores de 1 a 3 foram orientados a fornecer sugestões. O jogo sério foi disponibilizado para apreciação prévia no próprio formulário. O tempo estimado para preenchimento foi de 20 minutos.
A avaliação da usabilidade foi conduzida presencialmente com estudantes de graduação em enfermagem de uma universidade pública da região Sul do país. Foram incluídos estudantes de graduação em enfermagem, maiores de 18 anos, que já haviam cursado a disciplina relacionada à assistência cirúrgica. Foram excluídos estudantes que desistiram durante o estudo ou preencheram o instrumento com menos de 50% das respostas. A amostragem foi do tipo não probabilística, por conveniência. Estimou-se a participação de aproximadamente 30 estudantes, número recomendado para as fases iniciais de usabilidade10. No total, foram convidados 62 estudantes, dos quais 24 realizaram o teste de usabilidade.
A aplicação do jogo sério ocorreu presencialmente, em ambiente universitário, mediante agendamento prévio. Os participantes foram organizados em duplas e realizaram a atividade sob supervisão de um dos pesquisadores. Ao término da dinâmica, responderam a um instrumento composto pela System Usability Scale (SUS), versão adaptada para o português,11 com 10 itens, além de cinco questões abertas sobre pontos fortes, sugestões de melhorias e percepção geral sobre a tecnologia. A atividade teve duração aproximada de 40 minutos.
Os dados foram organizados em planilha do Microsoft Excel® e analisados estatisticamente. As variáveis sociodemográficas foram descritas por frequência absoluta (n) e percentual (%). Para a validação, foi calculado o Índice de Validade de Conteúdo (IVC), que expressa a proporção de concordância entre juízes especialistas quanto à adequação dos itens analisados. A Validade de Conteúdo dos Itens Individuais (I-VCI) foi obtida pela fórmula: IVC = número de respostas 4 e 5 / total de respostas. Em seguida, foi calculada a média dos IVCs individuais para obtenção do Índice de Validação de Conteúdo Geral (S-CVI/Ave). Foram considerados válidos os itens com IVC ≥ 0,80, correspondendo a um consenso de, no mínimo, 80% entre os avaliadores. Itens com valores inferiores foram revisados e reavaliados12.
A avaliação da usabilidade foi analisada por meio da pontuação do SUS. Para o cálculo, subtraiu-se um dos valores atribuídos aos itens ímpares e os valores dos itens pares foram subtraídos de cinco. A soma das pontuações foi multiplicada por 2,5, resultando em escores entre 0 e 100. Os escores foram classificados em valores médios do SUS associados a adjetivos qualitativos: 12,5 (Pior Imaginável), 20,3 (Terrível), 35,7 (Ruim), 50,9 (Regular), 71,4 (Bom), 85,5 (Excelente) e 90,9 (Melhor Imaginável)11. As respostas às questões abertas foram analisadas de forma descritiva, por meio da identificação de sugestões recorrentes, sendo utilizadas exclusivamente como subsídio para ajustes visuais e textuais do material.
A pesquisa seguiu os preceitos da Resolução n.º 466/2012 e n.º 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, sendo aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina. A coleta de dados foi iniciada após a obtenção da anuência dos participantes, por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), em conformidade com os preceitos éticos vigentes. Durante a preparação deste artigo, os autores utilizaram a ferramenta ChatGPT (OpenAI), modelo GPT-5.1, apenas para apoio na revisão linguística e aprimoramento da clareza textual. Todas as informações científicas, análises e interpretações foram produzidas pelos autores, que revisaram integralmente o conteúdo, assumindo total responsabilidade pela versão final do manuscrito.
RESULTADOS
Participaram da validação 13 enfermeiros, dos quais 10 (76,9%) eram do sexo feminino e três (23,1%) do sexo masculino. A média de tempo de atuação em enfermagem foi de 22 anos, e na área cirúrgica 13 anos, abrangendo tanto docência quanto assistência. Quanto à área de atuação, 10 (76,9%) eram docentes da área cirúrgica e três (23,1%) enfermeiros de centro cirúrgico. Em relação à titulação acadêmica, dois (15,4%) possuíam especialização, um (7,7%) mestrado, e 10 (76,9%) doutorado. Cinco participantes (38,5%) atuavam na Região Sul e oito (61,5%) na Região Sudeste do Brasil, abrangendo os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os escores obtidos na validação do jogo sério são apresentados na Tabela 1.
O I-VCI indicou que a maioria dos itens alcançou validade máxima, especialmente nas categorias de objetividade e conteúdo do jogo. Os itens relacionados ao tempo de duração de jogo e à precisão da redação (tamanho da fonte e textos) apresentaram IVC = 0,8, evidenciando a necessidade de ajustes na clareza textual. As sugestões dos especialistas, registradas nos campos descritivos do instrumento, subsidiaram a reformulação do material, resultando em ajustes no conteúdo textual, especialmente no tamanho das fontes e na clareza da redação do recurso didático-pedagógico.
Após a etapa de validação, a avaliação da jogabilidade contou com a participação de 24 estudantes de enfermagem, dos quais 19 (78,3%) eram do sexo feminino e cinco (21,7%) do sexo masculino. Apenas dois participantes (8,3%) relataram não ter experiência prévia com jogos educacionais. Os escores obtidos na avaliação de usabilidade encontram-se apresentados na Tabela 2 e ilustrados na Figura 2.
A Tabela 2 revela que a pontuação geral do SUS foi de 75,2, valor classificado como ‘bom’ segundo a escala adjetiva de referência. Os escores individuais do SUS (Figura 2) variaram entre 42,5 a 95, indicando uma percepção heterogênea entre os estudantes quanto à usabilidade da tecnologia. O menor escore foi atribuído à afirmação ‘eu acho que precisa de ajuda de uma pessoa com conhecimentos técnicos para usar esse jogo’, enquanto ‘eu achei esse jogo complicado de usar’ obteve a maior pontuação, sugerindo a necessidade de melhorias na facilidade de uso.
O jogo sério passou por ajustes destinados a melhorar a apresentação visual e a clareza textual. Foram implementados o aumento do tamanho das fontes e a inclusão de informações personalizadas na ficha de identificação, como horário de chegada e documento com foto, tornando-o mais acessível e intuitivo. O título foi reformulado para “Percurso Cirúrgico: sua jornada pré-operatória”, e as instruções na trilha de orientações foram ajustadas para maior clareza, com mensagens diretas como “Você foi chamado para o centro cirúrgico”, além da reorganização visual das etapas. Tais modificações visaram tornar as informações mais claras e facilitar a compreensão do jogo sério. A versão final do material pode ser acessada por meio do QR code (Figura 3), que direciona para a visualização digital interativa, ou diretamente pelo link: https://canva.link/jogo-preparo-cirurgico2025-versao-final-artigo.
Versão final do jogo sério “Percurso Cirúrgico: sua jornada pré-operatória”, com QR code para acesso à versão digital.
DISCUSSÃO
A validação do conteúdo do jogo sério ‘Percurso Cirúrgico: sua jornada pré-operatória’ evidencia que tecnologias educacionais adequadamente planejadas podem se tornar ferramentas estratégicas para qualificar o processo de orientação pré-operatória. Recursos educacionais estruturados e fundamentados em evidências favorecem a compreensão do paciente e contribuem para reduzir incertezas sobre o preparo cirúrgico13-14. A clareza nas orientações e a organização das informações são aspectos importantes para que o paciente compreenda as instruções, especialmente em práticas assistenciais, nos quais a falta de entendimento pode gerar consequências adversas5. Nesse sentido, a estrutura objetiva e o conteúdo disposto de forma lógica representam elementos centrais na elaboração de materiais que buscam favorecer a segurança e a autonomia do paciente.
Em contrapartida, aspectos relacionados ao design visual e à apresentação gráfica mostraram-se pontos a serem aprimorados. Tecnologias educacionais analógicas frequentemente apresentam limitações nesse aspecto, especialmente no que se refere à legibilidade das fontes e à disposição dos elementos, que podem impactar a experiência do usuário15-16. Nesse contexto, a necessidade de ajustes no layout do jogo sério evidencia a relevância de refinamentos estéticos e funcionais ao longo do processo de prototipagem e validação, a fim de ampliar a clareza e a atratividade da ferramenta.
A construção e validação de tecnologias educativas em saúde têm avançado em diferentes contextos. Estudo nacional evidenciou índice de validade superior a 90% em materiais desenvolvidos para orientação pré-operatória, ressaltando a importância da participação de especialistas no processo17. Da mesma forma, a elaboração de listas de checagem estruturadas e guias de orientação pré-cirúrgica tem se mostrado fundamental para minimizar falhas de comunicação e ampliar a segurança do paciente18. O presente estudo dialoga com essas evidências, ao propor um recurso lúdico que combina rigor científico a uma linguagem acessível ao público-alvo.
A validação do jogo reforça a importância de processos sistemáticos que assegurem a consistência e a pertinência dos conteúdos apresentados, além da relevância da participação de profissionais com expertise na temática. Em estudo de validação de um jogo sério voltado à prevenção de infecção do sítio cirúrgico, a adoção de etapas estruturadas de avaliação por especialistas com a utilização do IVC demonstrou rigor metodológico e índices satisfatórios de validade, conferindo clareza metodológica ao processo de desenvolvimento19.
De forma complementar, o jogo sério voltado à promoção da segurança do paciente alcançou índices de validade de conteúdo superiores a 0,80 em todos os itens avaliados, após a aplicação de duas rodadas da técnica Delphi20. A revisão por especialistas permite ajustes precisos no equilíbrio entre fundamentação científica e adequação ao público-alvo21. Nesse sentido, a validação conduzida neste estudo, ao incluir juízes experientes na área perioperatória e empregar métricas padronizadas, reforça a confiabilidade da tecnologia desenvolvida e sustenta seu potencial de aplicação em contextos clínicos.
No que se refere à usabilidade, embora o jogo tenha obtido avaliação positiva segundo a Escala SUS, a comparação com outras iniciativas evidencia oportunidades de aprimoramento. Pesquisas recentes registraram escores mais elevados em tecnologias semelhantes, sugerindo que aspectos como a interação e a facilidade de uso são determinantes na percepção do usuário22-23. A familiaridade dos participantes com ambientes educacionais pode ter favorecido a aceitação do recurso, ao mesmo tempo em que pode ter limitado a identificação de dificuldades que seriam mais evidentes em pacientes em situação real de cuidado. Estudos indicam que a composição da amostra exerce influência na avaliação da aplicabilidade de tecnologias em saúde15,24. A inclusão de estudantes de enfermagem como participantes mostrou-se adequada para uma etapa inicial de validação, mas limita a generalização dos resultados para pacientes cirúrgicos, que apresentam condições específicas de vulnerabilidade e ansiedade. Essa consideração reforça a necessidade de pesquisas futuras com amostras mais amplas e representativas, incluindo usuários finais do material.
Outro ponto a destacar refere-se ao processo de ajustes realizados a partir da avaliação do material. Em jogos voltados ao preparo cirúrgico pediátrico, observa-se que a avaliação contínua da jogabilidade orienta ajustes sucessivos24. De modo semelhante, a versão final do jogo sério incorporou modificações sugeridas pelos avaliadores, como aumento da fonte e reorganização das etapas, evidenciando a importância de processos cíclicos de revisão e validação.
Sob a perspectiva da inovação, o jogo sério apresenta vantagens ao incorporar elementos lúdicos em um formato acessível, de baixo custo e de fácil reprodução. Essas características favorecem sua implementação em diferentes realidades hospitalares, incluindo aquelas com menor acesso a tecnologias digitais. Esse diferencial posiciona o jogo como alternativa viável para contextos de menor complexidade, em contraste com recursos de realidade virtual, cuja aplicação requer maior infraestrutura25.
Em termos de aplicabilidade, o jogo validado neste estudo configura-se como um recurso complementar às orientações verbais fornecidas pela equipe de enfermagem, ampliando as estratégias disponíveis para a educação em saúde. Sua capacidade de adaptação às necessidades individuais favorece a inclusão e contribui para intervenções mais alinhadas às particularidades dos pacientes, em consonância com as diretrizes contemporâneas de promover cuidados centrados no paciente, respeitando sua singularidade e ampliando sua autonomia17,26.
No contexto assistencial, o jogo sério pode ser integrado em diferentes momentos do fluxo perioperatório, como na consulta de enfermagem pré-operatória, na internação hospitalar anterior à cirurgia, ou como recurso de reforço educativo após a admissão na unidade cirúrgica. Também pode ser utilizado em ambientes ambulatoriais, como estratégia preparatória antes do procedimento, favorecendo as orientações, o esclarecimento de dúvidas e a redução da ansiedade do paciente.
A utilização do jogo como ferramenta educacional no pré-operatório apresenta implicações especialmente relacionadas à promoção da autonomia do paciente27. A interatividade e a possibilidade de revisar as orientações de forma individualizada tornam a experiência educativa mais envolvente, contribuindo para a compreensão do processo cirúrgico e das expectativas envolvidas. Contudo, é necessário ampliar a acessibilidade da ferramenta, considerando pacientes com menor letramento em saúde ou que apresentem preferência por métodos tradicionais de informação.
O estudo apresenta limitações que devem ser consideradas, como a amostra reduzida composta apenas por estudantes de enfermagem, o que pode não refletir a experiência no contexto real de cuidado perioperatório. Embora adequada para uma etapa inicial de testagem, essa escolha pode ter influenciado a percepção da usabilidade, uma vez que estudantes apresentam maior familiaridade com ambientes educacionais e menor nível de ansiedade quando comparados a pacientes cirúrgicos. Ademais, a ausência de acompanhamento longitudinal limita a mensuração do impacto do jogo na redução efetiva da ansiedade e na adesão às orientações perioperatórias. Essas lacunas indicam a necessidade de ensaios clínicos controlados e estudos multicêntricos que avaliem o desempenho da tecnologia em diferentes perfis populacionais.
CONCLUSÃO
Este estudo validou o conteúdo e avaliou a usabilidade de um jogo sério voltado ao preparo pré-operatório de pacientes cirúrgicos. Os resultados da validação indicaram alta confiabilidade, com índice de validade de conteúdo médio de 0,9, o que confirma a relevância e adequação da tecnologia para o objetivo proposto. A avaliação de usabilidade, por meio da Escala SUS, obteve escore de 75,2, demonstrando boa aceitação entre os participantes e apontando aspectos a serem aprimorados, especialmente quanto à interatividade e facilidade de uso.
Conclui-se que o jogo sério apresenta potencial como recurso complementar para apoiar o preparo pré-operatório, com destaque para sua aplicabilidade e adequação pedagógica, conforme validado pelos especialistas e estudantes. A combinação de tecnologia educacional e cuidado centrado no paciente podem melhorar a experiência do paciente e contribuir para melhores resultados cirúrgicos.
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