RESUMO
Objetivo: Compreender as interfaces do cuidado familiar ao pré-termo no domicílio com os domínios de boa saúde, nutrição adequada, cuidados responsivos, segurança e proteção e oportunidades de aprendizagem precoce, do Nurturing Care Framework.
Método: estudo qualitativo orientado pelo referencial teórico do Nurturing Care Framework. Os dados foram coletados entre agosto de 2023 e março de 2024, nos domicílios de 12 pré-termos, com 27 familiares, acompanhados por um serviço de seguimento de neonatos de risco. Durante as visitas, realizou-se entrevista familiar diádica ou em grupo, e registros em diários de campo. Paralelamente, duas pesquisadoras realizaram codificação às cegas dos dados e verificação intercodificadores, por meio de análise temática dedutiva apoiada por software e orientada por um dicionário de códigos.
Resultados: Os resultados evidenciaram: Prevenção de adoecimento e promoção da saúde física do pré-termo; Introdução alimentar precoce e fragilidades relativas ao aleitamento materno; Responsividade dos cuidadores às demandas do pré-termo; Segurança intrafamiliar e prevenção de acidentes domésticos; Oportunidades de aprendizagem precoce, limitadas à estimulação motora.
Conclusão: Ficou evidente que os cuidadores apresentam uma compreensão restrita dos domínios do Nurturing Care Framework, reflexo do modelo assistencial de saúde vigente no cenário de investigação. Espera-se que as famílias, ao receberem cuidados e orientações de enfermagem, baseados no NCF, possam ampliar a compreensão e aplicabilidade do modelo em seu cotidiano, o que estaria alinhado aos objetivos para o desenvolvimento sustentável.
DESCRITORES:
Cuidados de transição; Desenvolvimento infantil; Intervenção precoce; Família; Recém-nascido pré-termo; Saúde da criança
ABSTRACT
Objective: To understand the interfaces of family care for preterm infants at home with the domains of good health, adequate nutrition, responsive care, safety and protection, and early learning opportunities, from the Nurturing Care Framework (NCF).
Method: This is a qualitative study guided by the theoretical framework of Nurturing Care Framework. Data were collected between August 2023 and March 2024, in the homes of 12 preterm infants, with 27 family members, followed by a high-risk newborn follow-up service. During the visits, dyadic or group family interviews were conducted, and records were kept in field diaries. In parallel, two researchers performed blind coding of the data and inter-coder verification, using software-assisted deductive thematic analysis guided by a code dictionary.
Results: The results showed: prevention of illness and promotion of physical health in preterm infants; early introduction of solid foods and breastfeeding-related weaknesses; caregiver responsiveness to the needs of preterm infants; intrafamily safety and prevention of domestic accidents; Early learning opportunities, limited to motor stimulation.
Conclusion: It became evident that caregivers have a limited understanding of the domains of Nurturing Care Framework (NCF), a reflection of the current healthcare model in the research setting. It is expected that families, upon receiving nursing care and guidance based on the NCF, will be able to broaden their understanding and applicability of the model in their daily lives, which would be aligned with the objectives for sustainable development.
DESCRIPTORS:
Transitional care; Child development; Early intervention; Family; Preterm newborn; Child health
RESUMEN
Objetivo: Comprender las interfaces del cuidado familiar de los bebés prematuros en el hogar con los ámbitos de la buena salud, la nutrición adecuada, la atención receptiva, la seguridad y la protección, y las oportunidades de aprendizaje temprano, del Nurturing Care Framework (Marco de atención integral).
Método: estudio cualitativo guiado por el marco teórico del Nurturing Care Framework. Los datos se recogieron entre agosto de 2023 y marzo de 2024 en los hogares de 12 bebés prematuros, con 27 miembros de su familia, seguidos de un servicio de seguimiento de recién nacidos de alto riesgo. Durante las visitas, se realizaron entrevistas familiares, tanto individuales como grupales, y se tomaron notas en diarios de campo. Paralelamente, dos investigadoras realizaron una codificación ciega de los datos y una verificación entre codificadores, utilizando un análisis temático deductivo apoyado por software y guiados por un diccionario de códigos.
Resultados: Los resultados mostraron: Prevención de enfermedades y promoción de la salud física en bebés prematuros; Introducción temprana de alimentos sólidos y vulnerabilidades relacionadas con la lactancia materna; Capacidad de respuesta del cuidador a las necesidades de los bebés prematuros; Seguridad intrafamiliar y prevención de accidentes domésticos; Oportunidades de aprendizaje temprano, limitadas a la estimulación motora.
Conclusión: Se hizo evidente que los cuidadores tienen una comprensión limitada de los dominios del Nurturing Care Framework, un reflejo del modelo actual de atención médica en el ámbito de la investigación. Se espera que las familias, al recibir atención y orientación de enfermería basadas en el NCF, puedan ampliar su comprensión y la aplicabilidad del modelo en su vida diaria, lo que estaría en consonancia con los objetivos de desarrollo sostenible.
DESCRIPTORES:
Atención de transición; Desarrollo infantil; Intervención temprana; Familia; Recién nacido prematuro; Salud infantil
INTRODUÇÃO
No Brasil, em 2024, aproximadamente 12,3% de todos os nascidos vivos foram pré-termos, ou seja, nasceram antes de completar 37 semanas de idade gestacional, e uma tendência aproximada a esta foi observada no estado de Minas Gerais1. A prematuridade é uma das principais ameaças ao desenvolvimento na primeira infância, devido sua alta correlação com a morbimortalidade infantil2. Associado a isso, os cuidadores podem vivenciar desafios consideráveis para promoverem um cuidado integral ao pré-termo no domicílio3-5. Esse cuidado demanda condições ambientais adequadas que promovam saúde, nutrição, segurança, proteção, cuidados responsivos e oportunidades de aprendizagem desde o início da vida4-5.
Isso é o que defende o plano estratégico do Nurturing Care Framework (NCF) - em português, Modelo de Cuidados Integrais4-5. Esse modelo foi proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em conjunto com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)4-6. O NCF convida diferentes setores da sociedade, especialmente o setor da saúde, para promoverem o desenvolvimento na primeira infância4,5,7. De acordo com o modelo, os profissionais da saúde possuem uma posição privilegiada para apoiar o cuidado integral, uma vez que desde a gestação até os três anos de vida, as famílias e crianças têm maior acesso a esses serviços4,5,7. Portanto, tais profissionais devem oferecer informações e orientações aos cuidadores e apoiar as famílias, principalmente as de bebês com complicações perinatais4,5,7.
A literatura aponta para estudos nacionais e internacionais que utilizam o NCF como um referencial, e apresenta sua contribuição em políticas públicas voltadas aos ODS e cuidados em saúde na primeira infância8-10. No entanto, não foram identificados estudos que abordassem o NCF, no contexto domiciliar do pré-termo e sua família. Partimos do pressuposto, que as experiências dos familiares no cuidado ao pré-termo no domicílio, possuem interfaces com o que é preconizado pelo NCF. Contudo há limitações vivenciadas que precisam ser exploradas, no contexto domiciliar do pré-termo, para propor estratégias que permitam contemplar, de forma mais abrangente, as dimensões desse modelo assistencial. Portanto, pergunta-se: como as experiências de cuidados familiares ao pré-termo no domicílio fazem interface com os domínios: boa saúde; nutrição adequada; segurança e proteção; cuidados responsivos e oportunidades de aprendizagem precoce, do NCF?
O objetivo desta pesquisa foi compreender as experiências de cuidado dos familiares ao pré-termo no domicílio e suas interfaces com o NCF. Esta pesquisa se justifica, pois um estudo que aponta aspectos funcionais na experiência das famílias nessa jornada, poderá nortear o manejo e atendimento das necessidades do pré-termo para: gestores, formuladores de políticas públicas, profissionais de saúde e famílias.
MÉTODO
Estudo qualitativo11 orientado pelo referencial teórico do Nurturing Care Framework (NCF)4-5. Aprovado pelo Comitê de Ética da instituição proponente. A elegibilidade dos participantes ocorreu mediante consulta ao prontuário do pré-termo, acompanhado pelo ambulatório do Programa de Intervenção Precoce Avançado (PIPA)12, com apoio de um roteiro elaborado pelas pesquisadoras. O PIPA é um serviço de seguimento de neonatos de risco instituído pelo governo do estado e ofertado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em uma cidade do Centro-Oeste de Minas Gerais12. Mais da metade dos atendimentos nesse serviço é ofertado às crianças nascidas prematuramente. O seguimento ao neonato de risco é realizado trimestralmente por uma equipe multiprofissional de saúde e assistência social até completar 24 meses de idade cronológica12.
Os critérios de inclusão dos participantes foram: famílias de pré-termos residentes no município cenário, e atendidos pelo PIPA, com idade corrigida entre 5 e 7 meses, sem diagnóstico adicional à prematuridade, de deficiência e/ou anomalia congênita, confirmada ou sob suspeita. Cuidador com diagnóstico de deficiência intelectual, que inviabilizasse a compreensão das perguntas, foi adotado como critério de exclusão. Foram analisados 58 prontuários e identificados 32 pré-termos elegíveis, cujo cuidador principal (pai ou mãe) foram convidados por telefone ou pessoalmente no ambulatório do PIPA. Desses, 14 recusaram, seis não responderam ao contato telefônico e 12 aceitaram participar. No momento do aceite, o cuidador principal era questionado sobre quais familiares participavam cotidianamente dos cuidados ao pré-termo. Diante disso, era proposto que convidasse tais cuidadores, para o momento da coleta de dados que seria realizada durante a visita domiciliar. O agendamento da visita ocorria mediante a disponibilidade simultânea dos cuidadores em questão. Participaram deste estudo 27 familiares (12 mães, seis pais, seis avós, dois avôs e uma tia) de pré-termos.
Os dados foram coletados nos domicílios de 12 pré-termos entre agosto de 2023 a março de 2024. As visitas domiciliares foram realizadas por uma pesquisadora, com participação de duas discentes de graduação (enfermagem e medicina). A pesquisadora, mestranda de um programa de pós-graduação em enfermagem, e com experiência no atendimento a neonatos de risco e suas famílias no serviço do PIPA, recebeu treinamento, supervisão e orientação de outra pesquisadora mais experiente. Foi adotado para a entrevista familiar diádica ou em grupo13, um instrumento semiestruturado elaborado pelas autoras, que incluía perguntas apoiadas no NCF e caracterização dos familiares e pré-termos4-5. As entrevistas foram conduzidas pela pesquisadora e registradas por meio de dois gravadores de áudio. Impressões pessoais e observações sobre o ambiente domiciliar, foram registradas em diário de campo11. O tempo médio de permanência nos domicílios foi de uma hora e cinquenta e dois minutos.
Para identificar o momento adequado de interromper a realização de novas entrevistas, foi realizado o processo de análise, concomitante à coleta dos dados. Diante disso, a saturação teórica dos dados foi identificada na 11a família, sendo confirmada na 12ª14. Todo o processo foi compartilhado entre três pesquisadoras e conduzido em quatro etapas: elaboração e validação do dicionário de códigos; análise de concordância a partir de validação intercodificadores; codificação das entrevistas e apresentação dos resultados. As entrevistas transcritas foram submetidas à análise temática dedutiva15, apoiada pelo software MAXQDA, versão 202416. As entrevistas, apesar de terem sido transcritas na íntegra, não foram apresentadas às famílias para validação. Para garantia do sigilo e anonimato, cada pré-termo e sua família foram identificados pelo grau de parentesco com a criança, seguido do número da entrevista, por exemplo, na primeira entrevista realizada, o pré-termo foi identificado como “P1”, sua família foi identificada como “Família 1”, e sua mãe identificada como “Mãe P1”, e, assim, sucessivamente. As autoras declaram a não utilização de ferramenta, modelo ou serviço de inteligência artificial, durante a preparação deste artigo. Os resultados são apresentados e organizados em cinco categorias.
RESULTADOS
Com relação às características dos pais dos pré-termos: a idade variou entre 22 e 44 anos, e o grau de escolaridade entre ensino fundamental incompleto a doutorado completo. A idade gestacional de nascimento dos pré-termos variou entre 29 semanas e um dia até 36 semanas.
A análise de conteúdo evidenciou as seguintes categorias: (1) Prevenção de adoecimento e promoção da saúde física do pré-termo; (2) Introdução alimentar precoce e fragilidades relativas ao aleitamento materno; (3) Responsividade dos cuidadores às demandas do pré-termo; (4) Segurança intrafamiliar e prevenção de acidentes domésticos; (5) Oportunidades de aprendizagem precoce, limitadas à estimulação motora.
Prevenção de adoecimento e promoção da saúde física do pré-termo
Os entrevistados consideraram os pré-termos saudáveis. Essa percepção se relacionou à ausência de doenças, comparação com neonatos nascidos a termo e percepção de um bom crescimento e desenvolvimento, mesmo quando apresentou situações de adoecimento ou intercorrência em saúde. A análise apontou ainda a compreensão dos próprios familiares sobre sua saúde, associada à realização de exames de rotina, prática de exercício físico e hábitos alimentares:
A saúde dele (refere-se a P11) é boa, graças a Deus, muito boa! […] Só teve agora a garganta dele que tava com essa placa, né? Que eu tinha mencionado, é… mais agora, graças a Deus tá bonzinho, teve mais nada […] (Mãe P11).
[…] Mas em relação à saúde de doenças nenhuma, né, amor (refere-se a pai P7)?! (Mãe P7) Nenhuma! Eu acho que o ponto que demanda mais atenção é os hábitos alimentares mesmo (refere-se à alimentação dos pais 7) (Pai P7).
A análise aponta que os cuidados familiares incluem identificar e atender às necessidades de saúde do pré-termo. Há preocupações das famílias com o adoecimento, consequentemente, busca por ações preventivas e atenção com sinais e sintomas. Para isso, as famílias buscam apoio nos serviços e profissionais de saúde:
Igual o dia que ele (refere-se a P2) arroxeou tudo comigo aqui eu pensei assim: ‘não, meu filho tá é morrendo’. Aí foi lá na UPA (refere-se à Unidade de Pronto Atendimento), fez os exames, fez o eletro do coraçãozinho e deu que era sopro que ele tem no coração por ele ser prematurinho (Mãe P2).
Introdução alimentar precoce e fragilidades relativas ao aleitamento materno
De acordo com a análise, as trajetórias de alimentação dos pré-termos mostraram-se singulares. No momento do trabalho de campo, todos eles, exceto P4, já estavam em introdução alimentar, sendo que oito deles iniciaram esse processo entre 4 e 5 meses de idade corrigida (P1, P2, P5, P6, P7, P8, P9, P12) (Figura 1). Os alimentos ofertados estão representados na Figura 2. As frutas de diferentes qualidades foram citadas em unanimidade pelas famílias e ofertadas principalmente no início do processo. O iogurte foi citado pela família 5, mesmo que contraindicado por uma profissional de saúde, conforme enunciado abaixo.
É iogurtim que a doutora (refere-se a pediatra) achava que não devia dar, mas ela (refere-se a P5) consegue e dá assim mesmo… é a criação normal (Avô materno P5).
Apenas a família 12 afirmou que a introdução alimentar foi iniciada sem a liberação de um profissional da saúde. Relacionado a isso, observou-se uma divergência de orientações. De acordo com a mãe do pré-termo 1, a introdução alimentar foi indicada pela pediatra particular e enfermeira da Estratégia de Saúde da Família (ESF), e contraindicada pelo neuropediatra.
Pela idade…é igual sobre a comida, a pediatra disse que tinha que esperar os nove meses, né? (Avó materna P12) Não, que tinha que esperar ele (refere-se a P12) sentar. (Mãe P12) […] É, ficar mais firme. Mas assim […] em janeiro eu já comecei querer por um pouquim de caldim de feijão, ele (refere-se a P12) já aceitou bastante o caldim de feijão (Avó materna P12).
Porque tem…igual eu falo: ‘Tem muita gente acompanhando o P1 e muita gente tem…fala uma coisa […]’. Tanto é que no dia que eu levei […] aí a pediatra de manhã: ‘pode comer’, o neuropediatra a tarde: ‘não dá comida’, […] Ah eu falei: ‘vou juntar todo mundo e falar assim: cês entra num consenso aí, e me fala’ (Mãe P1).
Neste estudo, quatro famílias mencionaram sobre os desafios na introdução alimentar, que ainda estavam sendo vivenciados (P1, P5, P11) ou que já haviam sido superados (P12). Dentre eles, a recusa, a seletividade e a regurgitação do alimento. Consequentemente, a aceitação do alimento ou à quantidade de leite ingerida por dia indicaram uma percepção positiva sobre a alimentação. A ingesta de frutas, verduras e legumes, relacionou-se à alimentação familiar saudável. Foram também identificadas divergências intrafamiliares sobre os hábitos alimentares.
[…] Péssima a alimentação…Uma dificuldade, ele (refere-se a P1) amamenta peito, né? Mas a introdução dele (refere-se a P1) tá sendo…desastre […] Frutinha, amassadinha e tudo aquilo…nada aceitava…nada (Mãe P1).
Uai, eu acho que eu sou tranquila, que eu como de tudo. Agora, o pai P9, ele é menos de fruta, né, pai P9? (Mãe P9) É… (Pai P9).
Responsividade dos cuidadores às demandas do pré-termo
Todas as famílias relataram identificar os comportamentos do pré-termo para responder às suas demandas por cuidado. Demandas essas relacionadas aos cuidados com higiene, alimentação, sono e saúde. Para algumas famílias, estimular o seu desenvolvimento também foi considerado uma demanda por cuidado, realizada em momentos específicos do dia com atividades direcionadas, ou durante ações rotineiras, como no momento do banho e alimentação. Além disso, a análise evidenciou que o estabelecimento de uma rotina é identificado como relevante para algumas famílias, mas para outras não.
E é tudo assim tão certinho, porque é igual eu falo pra mãe P10, como que ele (refere-se a P10) mostra pra gente, é…demonstra, é…assim, o sono, ‘eu quero dormir, eu não quero brincar, eu não quero mais nada aqui’ (Avó materna P10).
Sim…e os estímulos, né? (Mãe P7) Isso, exatamente, os estímulos… (Pai P7) […] Que é algo que a gente faz mais, né? Tenta sempre fazer com ele (refere-se a P7), né? Mais vezes ao dia (Mãe P7).
Igual, eu falo, o P1 ele não tem uma rotina básica, que é a rotina acorda, dorme, mama…não, o P1, ele faz a rotina dele. Até porque…a gente não é de ter muita rotina assim (refere-se a família 1) (Mãe P1).
A análise evidenciou a presença de cuidados afetuosos oferecidos ao pré-termo pelas famílias. A frequência desses cuidados variou para cada família, especialmente porque em algumas visitas na maior parte do tempo os pré-termos permaneceram dormindo, como foi o caso dos pré-termos 5, 7 e 11. Esses cuidados foram percebidos através de carícias e falas afetuosas, e registrados em diário de campo.
PEQUENA PAUSA-Todos (refere-se à família 3) param para observar novamente e interagir com P3, que balbucia em resposta, e está feliz. Ela volta para o chão e começa a engatinhar, o pai diz ‘agora vai correr, corre!’, a avó diz ‘vai, mostra pra moça (refere-se a pesquisadora) que você sabe correr’. Todos riem e observam P3 com afeição (Diário de campo, Família 3, Entrevistadora 1).
Segurança intrafamiliar e prevenção de acidentes domésticos
Para a maioria das famílias, a segurança e proteção do pré-termo é sinônimo de prevenção de acidentes infantis no domicílio, principalmente engasgos e quedas. Estratégias para a prevenção como limpeza, organização do ambiente, uso de babá eletrônica, atitudes intrafamiliares - de valorização e união entre os membros da família-, foram identificadas. Em contrapartida, condições precárias no domicílio também foram observadas e registradas em diário de campo. As mães 1, 7 e 8, consideraram que as reações comportamentais do pré-termo demonstram se ele está se sentindo seguro ou não, quer seja num ambiente ou com pessoas diferentes do habitual.
Ah! A gente (refere-se a família 4) tem é que ficar mais é atenta, né? Dele (refere-se a P4) engasgar, pôr alguma coisa na boca, porque agora ele já pega as coisas, puxa tudo aí […] tem que deixar o lugar mais limpo (Tia P4).
A casa possui alguns riscos, são muitos cachorros (refere-se aos 6 cachorros no domicílio), tinha material de limpeza na parte inferior da prateleira, facilitando o acesso de P5, e expondo-a a um risco. Outro risco é o excesso de degraus no domicílio (Diário de campo, Família 5, Entrevistadora 1).
Eu considero ele (refere-se a P7) agora, ele era mais inseguro, né, amor (refere-se a pai P7)? Porque nós (refere-se a família 7) tivemos o processo, nós ficamos no hospital, depois a gente foi pra casa da minha mãe, depois a gente veio pra nossa casa rsrs, né? Então, eu acho que foram muitos ambientes pra ele, sabe? E aí eu considero que ele teve uma evolução muito grande, porque ele dorme no quarto dele (Mãe P7).
Oportunidades de aprendizagem precoce limitadas à estimulação motora
A análise indica que todas as famílias entendem que a estimulação está relacionada à promoção do desenvolvimento, e que estimular é um ato de ensinar habilidades e conhecimentos que o pré-termo ainda não possui. Esse conhecimento foi majoritariamente obtido com profissionais de saúde. A maioria dos estímulos citados estiveram relacionados à aquisição de habilidades motoras. E foram citados diferentes recursos participantes desse processo de aprendizagem, sendo o brinquedo o recurso mencionado por todas as famílias.
Uai, estimulação pra mim é, como se diz, como a gente (refere-se à família 9) vai tá ensinando pra ele (refere-se a P9), passando pra ele conhecimentos, né? Ué, que ele ainda não tem, no caso de comer, né? De ele conhecer o próprio corpo, pegar as coisas, esse tipo de coisa, o meu entendimento seria esse (Pai P9).
E a gente (refere-se a família 3) vê eles fazer os movimentos lá (refere-se à fisioterapia), né? A gente vai tentando também, ajudar. Repetir as mesmas coisas, não passa por cima, mas é repetir as coisas que eles faz, pra, estimular ela (refere-se a P3) do jeito que eles fazem…sabe? (Avó materna P3).
E a gente sempre tenta comprar um brinquedo para estimulá-lo (refere-se a P7) (Mãe P7).
É uma fase de estimular também, né? (refere-se à introdução alimentar) […] As cores também das comidas que a gente (refere-se a família 10) escolhe […] A gente tenta misturar o cardápio, pra ficar um prato mais colorido, né? (Mãe P10).
O uso de telas (celular, TV etc.) foi interpretado de forma ambígua pelas famílias, sendo apontado como uma forma de estimular o seu desenvolvimento, ou como algo que não deve ser incentivado. Durante a visita à família 6, o uso de telas foi observado e registrado em diário de campo. A análise também sinalizou que os estímulos ofertados ao pré-termo possuem como referência as habilidades esperadas para a idade (corrigida ou cronológica) dentro dos chamados marcos de desenvolvimento.
No quarto do casal (refere-se aos pais de P6), que é onde fica o berço tipo cercado de P6, tem uma TV enorme, com aproximadamente 50 polegadas e ela estava ligada passando desenhos infantis, ou seja, aparentemente, os pais lançam mão desse recurso para P6 (Diário de campo, Família 6, Entrevistadora 1).
Então, a gente (refere-se a família 3) quer tentar estimular ela (refere-se a P3), tentar induzir ela a fazer as coisas, pra ela tentar acompanhar os bebês da idade dela, de 10 meses. (Mãe P3) Da idade normal dela, né? (refere-se à idade cronológica) … Isso que é a indução nossa… (Pai P3) Estimular é isso… (Mãe P3).
A Figura 3 busca apresentar de forma sintética a interface dos cuidados das famílias participantes no cenário de investigação, com os domínios do NCF.
Interações entre pré-termos e familiares dentro do contexto domiciliar, suas relações com os domínios do NCF e a influência das características pessoais dos pré-termos e familiares.
DISCUSSÃO
Em uma busca na literatura atual, não foram identificados estudos com pré-termos no contexto domiciliar, sob a ótica do NCF. Mas, foram identificados dois estudos qualitativos, com objetivo semelhante a este, realizados com cuidadores de crianças menores de 5 anos17-18. Em ambos os estudos, a estrutura do NCF foi valorizada pelos autores, como um referencial apropriado para fomentar o cuidado infantil. E identificaram que os cuidadores apresentam compreensão limitada sobre o modelo, bem como que há pontos fortes e fracos do ambiente de cuidados infantis no domicílio17-18. Tais achados assemelham-se com os resultados encontrados neste estudo. Mas, cabe ressaltar o olhar inovador sob o pré-termo, uma vez que constituem um grupo de maior risco de prejuízos no desenvolvimento, sendo o contexto domiciliar decisivo nesse desfecho19.
As famílias participantes compreendem que a boa saúde é representada pelo bem-estar físico ou ausência de doenças. O pré-termo foi considerado saudável, pelos cuidadores, quando observavam avanços no crescimento e desenvolvimento, sugerindo que há um olhar direcionado para o bem-estar físico. Isso sinaliza para uma compreensão reducionista dos cuidadores sobre saúde, haja vista que a Organização Mundial da Saúde (OMS) a define como um completo bem-estar físico, mental e social do indivíduo, e não apenas ausência de doenças20. De acordo com Schramme, o termo "completo" não se refere necessariamente a um bem-estar perfeito, mas pode, alternativamente, significar um bem-estar exaustivo, ou seja, que contenha todas as suas características constitutivas20.
A literatura aponta para uma preocupação acentuada dos pais de pré-termos com relação ao risco de complicações de saúde, devido à compreensão de sua maior fragilidade3. A valorização e busca pelos serviços de saúde para os pré-termos ficou evidente. É oportuno considerar que essa continuidade do cuidado, é mediada pela família e seu protagonismo ao buscar por cuidados, amenizando falhas no seguimento21. Os cuidadores demonstraram atenção a sinais ou sintomas do pré-termo, que indicavam adoecimentos. Isso sinaliza para a estreita relação entre os domínios de boa saúde, e a sensibilidade/responsividade, valorizadas nos cuidados responsivos4-5. Essa busca pelos serviços de saúde foi curativa ou preventiva. O NCF enfatiza a proximidade que os profissionais de saúde possuem com as crianças e suas famílias na primeira infância, proporcionando maiores oportunidades em oferecerem orientações sobre cuidados integrais aos familiares4-6,16.
Nesta pesquisa, a introdução alimentar ocorreu antes dos 6 meses de idade corrigida, para maioria dos pré-termos, e nenhuma criança foi exclusivamente amamentada até os 6 meses, o que vai contra o que é preconizado pelo NCF4-5. Para a criança nascida pré-termo, a idade de introdução dos alimentos depende da sua maturação neurológica, e, por isso, recomenda-se a introdução a partir dos 6 meses de idade corrigida22, no entanto não há consenso na literatura sobre isso23-24. Essa falta de consenso também foi identificada neste estudo, através das divergências de orientações profissionais sobre a introdução alimentar. Esse achado também foi identificado em um outro estudo com pré-termos24. Já um segundo estudo identificou que a maioria iniciou a introdução alimentar após os 6 meses, e que assim como nesta pesquisa, as frutas e verduras foram os principais alimentos ofertados na fase inicial25. Essas evidências sugerem a relevância de investigações futuras sobre essa temática. Inclusive sobre a própria adesão do cálculo da idade corrigida, pelos profissionais de saúde, para o seguimento do pré-termo, a fim de apoiar a prática clínica acerca da introdução alimentar e nutrição, segura e protetiva do pré-termo. Tendo em vista que a alimentação complementar e a transição para a dieta saudável da família estão previstas no NCF4-5.
A sensibilidade e responsividade às demandas por cuidado ao pré-termo foram amplamente identificadas nas falas dos cuidadores. Além disso, interações afetuosas entre cuidadores e pré-termo foram observadas pelas pesquisadoras durante as visitas domiciliares. Esses aspectos se relacionam positivamente ao domínio de cuidados responsivos, valorizados pelo NCF4-5. Os profissionais de saúde, portanto, devem fortalecer esse cenário. Há evidências satisfatórias de intervenções de educação baseadas no NCF, para o neurodesenvolvimento infantil17,26.
Os cuidadores valorizam a prevenção de acidentes como um aspecto fundamental para a segurança do pré-termo. No entanto, neste estudo, foram identificados ambientes familiares/domiciliares seguros e precários/inseguros. A análise dos dados aponta que para prevenir acidentes domésticos, os cuidadores relatam realizar a supervisão constante do pré-termo, e isso é identificado na literatura17. Mas, apesar de valorizarem esses aspectos, em alguns domicílios, as pesquisadoras visualizaram inseguranças ambientais como fácil acesso do pré-termo a produtos de limpeza e escadas, por exemplo. Portanto, torna-se necessário ampliar a compreensão dos cuidadores sobre as práticas de prevenção de acidentes no domicílio.
A análise indica que a estimulação é, muitas vezes, realizada em atividades rotineiras no domicílio, como na hora do banho, das refeições, brincadeiras e atividades domésticas. Essa é inclusive uma recomendação do NCF, principalmente para o cuidador com menor tempo disponível no dia a dia para dedicar-se às atividades de estimulação4,5. Ficou evidente que o ambiente e seus diferentes recursos foram mencionados pelos participantes como oportunidades de aprendizagem precoce, principalmente os brinquedos, isso vai de encontro ao NCF. Em contrapartida, a exposição às telas, que também foi um recurso mencionado, configura um comportamento de risco para o desenvolvimento infantil27.
O termo desenvolvimento, na perspectiva dos participantes, está, principalmente, relacionado à aquisição de habilidades motoras. Um estudo apontou que para os pais de bebês nascidos muito prematuros, estimular o desenvolvimento motor era mais importante do que para os pais de bebês nascidos a termo28. Isso pode se relacionar ao fato de que pré-termos possuem risco aumentado de desenvolver desordens motoras, atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor e paralisia cerebral29. No entanto, de acordo com o NCF, as oportunidades de aprendizagem precoce devem englobar os diversos domínios do desenvolvimento infantil (motricidade, comunicação, perceptual)4-5. Essas evidências permitem inferir, que pode ser oportuno ampliar a compreensão dos cuidadores sobre a aprendizagem precoce.
Os resultados sugerem que as respostas familiares às diferentes demandas do pré-termo estão alinhadas aos cuidados responsivos, e inferimos que esse domínio possui um caráter transversal para aplicabilidade do modelo NCF, e para a integralidade da atenção prestada. Nessa direção, a ausência de um cuidado responsivo parece comprometer a boa saúde, a nutrição adequada, a aprendizagem precoce e a segurança e proteção. Diante do exposto, fica evidente a necessidade de orientações profissionais aos cuidadores, para uma compreensão mais abrangente de cuidados responsivos, que possibilite identificar e responder adequadamente às necessidades de cuidados do pré-termo baseadas no NCF.
É oportuno mencionar as limitações deste estudo, uma vez que o tempo de permanência no domicílio e a metodologia adotada apresentam um retrato sobre a realidade investigada. Ainda assim, este estudo trouxe evidências oportunas e inéditas, até onde sabemos, pois sinaliza para a necessidade de promover a compreensão e prática das famílias, no cuidado integral ao pré-termo no domicílio. Pesquisas futuras são recomendadas para fomentar o conhecimento sobre esses achados, e fortalecer o cuidado integral na prática de profissionais de saúde e demais setores da sociedade.
CONCLUSÃO
Este estudo evidenciou que há fragilidades na compreensão dos cuidadores em identificar e responder adequadamente, e de forma integral às demandas por cuidados do pré-termo. Os cuidados com a saúde se relacionaram apenas à saúde física, o que direcionou cuidados domiciliares essencialmente voltados à promoção da saúde física do pré-termo. Os cuidados com a nutrição se relacionaram à introdução alimentar precoce, e fragilidades relativas ao aleitamento materno. Os cuidados com a segurança e proteção, para os cuidadores, essencialmente relacionados à prevenção de acidentes, embora as práticas de cuidados, nesse aspecto, nem sempre estiveram presentes no domicílio. As oportunidades de aprendizagem precoce estiveram restritas à estimulação, principalmente do desenvolvimento motor do pré-termo. E em relação aos cuidados responsivos, foi identificado como um domínio transversal, que engloba todos os outros, uma vez que remeteu à responsividade, às demandas por cuidados ao pré-termo. No entanto, ainda assim, essa identificação apropriada das demandas por cuidado para responsividade adequada, também se mostrou fragilizada.
O setor da saúde possui o importante papel na promoção dos cuidados integrais ao pré-termo no domicílio. Portanto, recomenda-se que os profissionais e os enfermeiros atuem como agentes multiplicadores desse conhecimento, através de orientações individualizadas às necessidades de cada família. Orientações que contemplem todos os domínios da estrutura do NCF.
Referências bibliográficas
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Fonte: Dados da pesquisa e adaptação de World Health Organization (WHO)