Open-access PERCEPÇÃO DE ESTRESSE ENTRE MULHERES DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA SEGUNDO AS EXPERIÊNCIAS DE VIOLÊNCIA

  • SCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS

RESUMO

Objetivo:   Verificar a associação entre a percepção de estresse e as experiências de violência sexual na infância e violência por parceiro íntimo, ao longo da vida e durante a pandemia de Covid-19.

Método:  estudo transversal de base populacional, realizado em Vitória, no Espírito Santo, Brasil, de janeiro a maio de 2022, com 1.086 mulheres de 18 anos ou mais, que tinham ou tiveram parceiro íntimo nos últimos 24 meses. A percepção de estresse foi avaliada pela versão curta da Escala de Estresse Percebido com descrição por frequências absolutas, relativas, média, desvio padrão e testes bivariados por ANOVA e t de Student, sendo a associação verificada por regressão linear simples e múltipla, considerando p<0,20 e manutenção quando p<0,05, realizadas no Stata 17.0.

Resultados:  A percepção de estresse associou-se à vitimização de dois (β = 4,90; IC95%: 3,65-6,15) e três (β = 3,83; IC95%: 2,51-5,15) tipos de violência ao longo da vida, já durante a pandemia de Covid-19, as mulheres que experienciaram um (β = 2,68; IC95%: 1,30-4,06) ou dois (β = 3,60; IC95%: 1,64-5,56) tipos de violência por parceiro íntimo tiveram maior percepção de estresse.

Conclusão:  Há associação entre a percepção de estresse com a exposição a violência perpetrada pelo parceiro íntimo durante a vida e no período da pandemia de COVID-19. Os achados são fundamentais para compreender a violência perpetrada pelo parceiro íntimo, como uma importante exposição geradora de estresse entre as mulheres.

DESCRITORES:
Violência; Violência contra a mulher; Violência por parceiro íntimo; Estresse psicológico; Estresse subjetivo

ABSTRACT

Objective:   to verify the association between perceived stress and experiences of sexual violence in childhood and intimate partner violence throughout life and during the Covid-19 pandemic.

Method:   this is a population-based cross-sectional study conducted in Vitória, Espírito Santo, Brazil, from January to May 2022, with 1,086 women aged 18 years or older who had or had had an intimate partner in the last 24 months. Perceived stress was assessed using the short version of the Perceived Stress Scale with descriptions by absolute and relative frequencies, mean, standard deviation, and bivariate tests using ANOVA and Student’s t-test. The association was verified by simple and multiple linear regression, considering p<0.20 and maintenance when p<0.05, performed in Stata 17.0.

Results:   the perception of stress was associated with victimization of two (β = 4.90; 95%CI: 3.65-6.15) and three (β = 3.83; 95%CI: 2.51-5.15) types of violence throughout life, while women who experienced one (β = 2.68; 95%CI: 1.30-4.06) or two (β = 3.60; 95%CI: 1.64-5.56) types of intimate partner violence during the Covid-19 pandemic had a higher perception of stress.

Conclusion:   there is an association between the perception of stress and exposure to intimate partner violence throughout life and during the Covid-19 pandemic. The findings are fundamental to understanding intimate partner violence as an important stress-generating exposure among women.

DESCRIPTORS:
Violence; Violence against women; Intimate partner violence; Psychological stress; Subjective stress

RESUMEN

Objetivo:   verificar la asociación entre el estrés percibido y las experiencias de violencia sexual en la infancia y violencia de pareja a lo largo de la vida, así como durante la pandemia de Covid-19.

Método:   se realizó un estudio transversal poblacional en Vitória, Espírito Santo, Brasil, de enero a mayo de 2022, con 1086 mujeres de 18 años o más que tuvieron o tuvieron pareja en los últimos 24 meses. El estrés percibido se evaluó mediante la versión abreviada de la Escala de Estrés Percibido, con descripciones mediante frecuencias absolutas y relativas, media, desviación estándar y pruebas bivariados mediante ANOVA y la prueba t de Student. La asociación se verificó mediante regresión lineal simple y múltiple, considerando un valor de p < 0,20 y manteniéndose cuando p < 0,05, realizada en Stata 17.0.

Resultados:   la percepción de estrés se asoció con la victimización de dos (β = 4,90; IC del 95 %: 3,65-6,15) y tres (β = 3,83; IC del 95 %: 2,51-5,15) tipos de violencia a lo largo de la vida, mientras que durante la pandemia de Covid-19, las mujeres que experimentaron uno (β = 2,68; IC del 95 %: 1,30-4,06) o dos (β = 3,60; IC del 95 %: 1,64-5,56) tipos de violencia de pareja presentaron una mayor percepción de estrés.

Conclusión:   existe una asociación entre la percepción de estrés y la exposición a la violencia de pareja a lo largo de la vida y durante la pandemia de Covid-19. Los hallazgos son fundamentales para comprender la violencia de pareja como una importante fuente de estrés en las mujeres.

DESCRIPTORES:
Violencia; Violencia contra la mujer; Violencia de pareja; Estrés psicológico; Estrés subjetivo

INTRODUÇÃO

A utilização intencional da força física ou do poder, seja por meio de ameaça ou em ato, direcionada a si próprio ou contra outra pessoa, que leve a lesões, danos psicológicos, deficiência de desenvolvimento e privação, constitui o que conhecemos como violência1. É nesse contexto que se pode inserir a violência contra a mulher2, especialmente a ocorrência de violência perpetrada pelo parceiro íntimo (VPI) e o abuso sexual na infância.

A VPI se caracteriza por agressões físicas, sexuais, abusos psicológicos e por comportamentos controladores contra a vítima, ocorrendo dentro da coabitação, casamento, e em qualquer união formal ou informal3.

Além da VPI, outra forma de experenciar a violência é pela ocorrência de abuso sexual na infância, caracterizada por atos com fins sexuais, que prejudicam o corpo e a mente da vítima, violando direitos fundamentais como liberdade, respeito e dignidade, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente4.

Estima-se que 641 milhões de mulheres no mundo sofreram VPI, com uma em cada três mulheres experimentando violência física e/ou sexual por parte do parceiro ao longo da vida. Na América Latina, a prevalência é de 25% ao longo da vida e 8% nos últimos 12 meses3.

A preocupação com a violência contra a mulher aumentou durante a pandemia de Covid-19. As ordens de permanência em casa expuseram muitas mulheres aos seus abusadores por mais tempo, resultando em 23% das mulheres relatando que a pandemia piorou sua segurança dentro de casa3. Desde o início da pandemia, sete em cada 10 mulheres disseram que a violência física ou verbal, por parte do parceiro, tornou-se comum, e que seis em cada 10 mulheres relataram aumento do assédio sexual5.

Dessa maneira, por si só, a VPI traz consequências devastadoras para a mulher, como humor depressivo-ansioso, decréscimo de energia vital, sintomas somáticos e pensamentos depressivos6, insônia, pesadelos, dificuldades de concentração, irritabilidade, perda de apetite, depressão, ansiedade, síndrome do pânico, estresse pós-traumático e abuso de substância7.

Já o abuso sexual na infância desencadeia diversas alterações na vida adulta das mulheres, como comportamentos autodestrutivos, dificuldade na identificação de gênero, dificuldade na vida sexual e futuros relacionamentos, tentativas de suicídio, abuso de drogas, traumas, dificuldade de se relacionar com o mesmo sexo do abusador6. Dessa maneira, seja no contexto pandêmico ou durante a vida, tanto a ocorrência de VPI quanto a ocorrência de abuso sexual na infância podem gerar consequências na vida adulta3,6.

Experiências de violência podem repercutir na saúde da vítima, como uma fonte de estresse8.

A vivência de abuso sexual na infância pode levar a repercussões que afetam o bem-estar psicológico, físico, sexual e social, as quais perduram por toda vida da vítima6. Já a VPI está associada a múltiplos resultados negativos para o bem-estar das vítimas, sendo fator de estresse entre milhões de mulheres9. Esse cenário também é observado durante a pandemia de Covid-19, onde as mulheres que sofreram VPI, tiveram aumento de 1,4 vezes na percepção de estresse3.

O estresse pode vir a ser uma resposta de enfrentamento à ocorrência de VPI10, bem como a VPI pode ser a fonte do estresse psicológico11. Quando uma mulher está exposta a violência, pode lidar com suas emoções de formas diferentes, reprimindo-as ou exacerbando-as, e isso ocorre porque o estresse é subjetivo, visto que se trata de um conjunto de reações apresentado pelo organismo diante de situações que exijam um esforço para adaptação a situações12. Por isso, compreender a natureza crítica do estresse pode ser um desafio, devido à subjetividade dos eventos estressantes13 o que parece ocorrer é uma relação bidirecional destes, mas de todo modo o estresse será inevitável no contexto da VPI10.

Mediante isso, para compreender as repercussões da violência na saúde, seja pela ocorrência de violência por parceiro íntimo e até mesmo pela ocorrência de violência sexual na infância da mulher, ambos eventos que afetam a vida social, familiar e laboral das mulheres, e principalmente na saúde mental, questiona-se: qual é a associação entre a percepção de estresse e as experiências de violência vivenciadas pelas mulheres?

O presente estudo tem por objetivo verificar a associação entre a percepção de estresse e as experiências de violência sexual na infância e violência por parceiro íntimo ao longo da vida e durante a pandemia de Covid-19.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal, que utilizou dados de um estudo intitulado “Violência contra mulher: um estudo de base populacional no município de Vitória, Espírito Santo”, que foi elaborado e descrito com base na diretriz STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology), conforme recomendações. Os autores informam que não houve. Durante a preparação deste artigo as autoras afirmam que não utilizaram qualquer ferramenta, modelo ou serviço de Inteligência artificial na produção desse material.

O estudo foi realizado em Vitória, capital do estado do Espírito Santo, com 93 km² de extensão territorial, composta por 79 bairros, sendo ilhas e uma parte continental com uma população de 322.869 pessoas, com 173.412 mulheres no total, onde 147.516 são mulheres acima de 20 anos, correspondendo a 53,71% da população14, em 2021.

A coleta de dados ocorreu no período de janeiro a maio de 2022, sendo realizada por entrevistadoras do sexo feminino, que foram devidamente treinadas. Além das entrevistadoras, a pesquisa contava com supervisores de campo. A coleta aconteceu nos domicílios das participantes, garantindo sigilo e privacidade, com duração média de 50 minutos. Os dados coletados foram computados em tablets e gerenciados por auxílio de ferramenta eletrônica de captura de dados Research Eletronic Data Capture (REDCap).

Para a amostragem, o Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi verificado, a fim de selecionar setores censitários que correspondem a unidade cadastral por área contínua contido em uma região. Foram selecionados um total de 108.515 domicílios, dividido por 100. O setor inicial foi escolhido aleatoriamente, e os outros 99 setores subsequentes foram selecionados com base em um pulo sistemático. No total, foram entrevistadas 1.086 mulheres, sendo selecionada uma a cada domicílio, e, caso houvesse mais de uma mulher residindo no mesmo domicílio, uma lista numérica era sorteada para a seleção aleatória de uma delas. Todo esse processo foi realizado no software estatístico R, levando em consideração a classificação do nível socioeconômico.

A amostra foi composta por mulheres com idade de 18 anos ou mais, que possuíam ou possuíram parceiros íntimos nos últimos 24 meses. O parceiro íntimo é definido nesse estudo como aquele que é o companheiro atual ou ex-companheiro, namorado com o qual a mulher tem relações sexuais. Sendo considerado como critério de exclusão aquelas que em detrimento a déficit intelectual ou sensorial não possuíam plena capacidade para responder aos questionamentos na pesquisa.

O desfecho foi composto pelo nível de estresse percebido que foi avaliado pela versão curta do instrumento da Escala de Estresse Percebido, composto por 10 itens (PSS-10)15. De acordo com Luft et al.16 o instrumento PSS-10 pode variar sua pontuação de zero a quatro (0=nunca; 1=quase nunca; 2=às vezes; 3=quase sempre; 4=sempre). Ressalta-se que os itens com carga fatorial positiva terão sua pontuação invertida (0=4; 1=3; 2=2; 3=1 e 4=0), sendo as demais questões com cargas fatoriais negativas, e, consequentemente, a pontuação consistirá na soma direta sem inversão de valores. Sendo assim, a pontuação total da percepção de estresse é baseada em uma escala de Likert, contínua, pode variar de 0 a 4016.

As variáveis de exposição foram compostas por dados categóricos como a exposição a violência sexual na infância (não/sim), já a ocorrência de VPI foi rastreada através da aplicação do instrumento Violence Against Women (WHO VAW STUDY) elaborado pela OMS17. O Instrumento conta com 13 questões sobre violência e cada resposta positiva representa a experimentação do ato violento contra a mulher17, sendo possível rastrear os tipos de VPI (psicológica, física, sexual) sofridas ao longo da vida (não/sim). Além disso, permite rastrear o número de ocorrência dessas violências ao longo da vida (nenhum tipo de violência, um tipo de violência, dois tipos de violência e três tipos de violência), e, por fim, número de tipos de VPI (psicológica, física e/ou sexual) sofridas durante o período da pandemia de Covid-19, e, também o rastreio do número de ocorrência de VPI na pandemia (nenhum tipo de violência, um tipo de violência, dois tipos de violência e três tipos de violência).

As variáveis de controle para esse estudo foram compostas por dados sociodemográficos e econômicos, como: faixa-etária (18 a 24; 25 a 34; 35 a 44; 45 a 59; 60 ou mais), raça-cor (branca e não branca), anos de estudo (0 a 8 anos; igual ou acima de 8 anos), situação conjugal (com companheiro; sem companheiro), renda familiar por quartil (1º quartil - mais pobres; 2º quartil; 3º quartil; 4º quartil - mais ricos), se a mãe já sofreu violência física por algum companheiro (sim e não) e a ocorrência de violência sexual na infância (sim e não).

O projeto do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo, Todas as mulheres, antes de serem entrevistadas, foram informadas quanto aos aspectos éticos da pesquisa, seus objetivos e possíveis riscos e benefícios, bem como assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE).

A análise de dados seguiu o modelo conceitual, apresentado na Figura 1, que foi elaborado de acordo com a revisão da literatura sobre os fatores que influenciam na percepção de estresse entre as mulheres. A estrutura do modelo orientou a definição para a hierarquização das variáveis, permitindo compreender os controles e ajustes para o desfecho, contribuindo para a coerência no processo analítico.

Figura 1 -
Modelo conceitual hierárquico das relações entre as variáveis independentes e a percepção de estresse entre mulheres.

As análises foram conduzidas mediante apresentação de frequência bruta, relativa e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Foi utilizada, como medida de tendência central, a apresentação de média, juntamente do seu desvio-padrão (DP), uma vez que a escala de percepção de estresse é contínua ainda; a normalidade dos dados foi averiguada a partir de visualização do histograma, Skweness/Kurtosis e confirmatória realizada pelo teste de Shapiro-Francia, apresentando valor de 0.14. O coeficiente dos dados foi avaliado quanto ao alpha Scale de Cronbach (α) apresentando boa consistência interna (0,80), com confirmatória por ômega de Mcdonalds (ω) de 0,80.). Em seguida, os dados foram avaliados mediante análise bivariada por testes t para média, quando as variáveis independentes fossem dicotômicas e análise de variância por ANOVA pelas médias quando as variáveis independentes apresentavam três ou mais categorias, assim, nessa etapa, considerou-se significativo o p-valor em 5%. Para verificar a associação proposta, análises multivariáveis por regressão linear simples e múltipla foram expressas por seus betas (ß). Para essa etapa, o nível de significância para entrar no modelo multivariável foi de 20% e 5% para que permanecesse no modelo final. Todas as etapas descritas da análise foram realizadas no programa estatístico Stata versão 17.0.

RESULTADOS

Após a análise dos dados, na Tabela 1, as maiores médias de percepção de estresse estão entre as mulheres que sofreram violência sexual na infância (µ=19,72; DP=±6,98), que sofrem dois tipos de violência pelo parceiro íntimo ao longo da vida (µ=20,03, DP=±7,43), e por aquelas que sofreram dois tipos de violência pelo parceiro íntimo durante a pandemia de COVID-19 (µ=20,04; DP=±7,04).

Tabela 1 -
Percepção de estresse segundo a experiência de violência sexual na infância, número de violência praticada por parceiro íntimo na vida e durante a pandemia de covid-19 entre as mulheres residentes no município de Vitória, ES, Brasil, 2022. (n=1086).

De acordo com o modelo 1 e 2, mulheres que sofreram violência sexual na infância apresentaram maior média de estresse quando comparadas as mulheres que não sofreram violência sexual infância, em média, 3,71 e 3,04 pontos a mais, respectivamente, do que as que não sofreram (Tabela 2).

Tabela 2 -
Análise bruta e ajustada do coeficiente da regressão linear (β) da percepção de estresse segundo violência sexual na infância entre as mulheres residentes no município de Vitória, ES, Brasil, 2022. (n=1086).

De acordo com a Tabela 3, ter sofrido um, dois ou três tipos de violência pelo parceiro íntimo ao longo da vida, apresentaram associação a percepção de estresse quando comparadas às mulheres que não sofreram nenhum tipo de violência. Para o modelo final (modelo 4), mulheres que sofrem dois tipos de violência apresentaram, em média, 4,90 pontos a mais de percepção de estresse em comparação às mulheres que não sofreram violência por parceiro íntimo, assim como as que sofreram três tipos de VPI ao longo de suas vidas tiveram, em média, 3,83 pontos a mais de percepção de estresse comparadas às que não sofreram VPI (p<0,05).

Tabela 3 -
Análise bruta e ajustada do coeficiente da regressão linear (β) da percepção de estresse segundo violência por parceiro íntimo na vida ao longo da vida entre as mulheres residentes no município de Vitória, ES, Brasil, 2022. (n=1086).

A Tabela 4 evidência, no modelo final, que as mulheres que sofreram um tipo de violência apresentam, em média, 2,68 pontos a mais de percepção de estresse comparadas às mulheres que não sofreram nenhuma VPI, bem como aquelas que sofreram dois tipos de violência pelo parceiro íntimo, apresentando, em média, 3,60 pontos a mais de percepção de estresse, quando comparadas às mulheres que não sofreram violência durante a pandemia de covid-19.

Tabela 4 -
Análise bruta e ajustada do coeficiente da regressão linear (β) da percepção de estresse segundo violência por parceiro íntimo durante a pandemia de Covid-19 entre as mulheres residentes no município de Vitória, ES, Brasil, 2022 (n=1086).

DISCUSSÃO

Neste estudo, os resultados apontam que a exposição à violência praticada pelo parceiro íntimo, tanto ao longo da vida quanto durante a pandemia de Covid-19 estão associados a uma maior percepção de estresse entre as residentes do município de Vitória.

As mulheres que experienciaram violência sexual na infância, comparadas às que não sofreram essa violência, tiveram maior média de percepção de estresse, enquanto adultas na presente pesquisa. Independentemente do tipo de violência ocorrido na infância, uma das sequelas será o estresse18,19 e consideram que o estresse na infância possa advir de experiências adversas vividas pela criança, como restrição, abuso ou negligência da família. Dessa forma, quando esta exposição é grave e crônica gera consequências negativas a longo prazo seja cognitivo, emocionais e comportamentais.

As consequências de viver em ambientes familiares violentos podem se manifestar de diferentes maneiras, como comprometimentos psicológicos, dificuldades nas relações sociais, transtornos de comportamento, envolvimento em condutas que violam a legislação penal e a reprodução de relacionamentos íntimos violentos na vida adulta20.

O contexto violento durante a infância, como o abuso sexual, pode se perpetuar na fase adulta, como por exemplo mulheres que vivenciaram situações de violência quando crianças possuem maior chance de sofrerem VPI na vida (OR: 2,2; IC95% 1,72-2,83), assim como aquelas que sofreram abuso sexual na infância (OR: 7,14; IC95% 4,15-12,26) 6. Isso se torna significativo, ao passo que traz a luz a cadeia de eventos que uma violência que ocorre na infância pode acarretar na vida de uma mulher adulta. Dessa maneira, conforme exposto6, compreender essa relação torna-se relevante, pois o abuso sexual na infância, principalmente se este ocorre no âmbito familiar, pode vir a comprometer a saúde da mulher, independentemente de sua idade.

Além disso, nossos achados mostram que há maior percepção de estresse entre aquelas que sofreram violência por parceiro íntimo ao longo da vida, indo ao encontro de outros estudos21. Uma análise, com mulheres diagnosticadas com câncer mostra que experimentar VPI aumenta a percepção de estresse21, visto que essas vítimas apresentaram níveis significativamente mais elevados de sintomas depressivos e estresse, comparando com as mulheres não vítimas22. A violência sexual produz impactos de efeitos diversos na saúde mental, com respostas desreguladas ao estresse22.

No contexto da COVID-19, nossos dados demonstram que as mulheres apresentaram, em média, 3,6 pontos a mais na percepção de estresse do que as mulheres que não sofreram violência durante a pandemia. Um resultado semelhante foi encontrado em outro estudo23, que aponta o aumento da VPI como proporcional ao aumento da percepção do estresse23.

O contexto em que a sociedade se configurou durante o período de pandemia, para que houvesse redução da propagação do vírus, favoreceu o isolamento social, o fechamento de comércio e o trabalho tornou-se remoto, assim, esse cenário obrigou as famílias a conviverem mais tempo em suas residências, ampliando as tensões econômicas, a saúde e principalmente a violência24. Neste cenário, as medidas para controle do vírus, seja o lockdown ou isolamento social, foram potencializadoras para o aumento da VPI25. Órgãos governamentais voltados ao enfrentamento da violência evidenciaram um acréscimo da violência contra a mulher, principalmente pelo estresse econômico e coexistência forçada com agressor26.

Além disso, o estresse pode vir acompanhado de emoções, como ansiedade e irritabilidade, dificuldade de concentração, dores de cabeça, dores no corpo, dores de estômago e problemas para dormir27.

Portanto, há muitos desafios a serem enfrentados mediante a VPI, numa sociedade brasileira que apresenta um contexto histórico de naturalização das condutas de homens e mulheres, estereótipos, que podem levar a sustentação da cultura de discriminação e a violência contra a mulher. Esse cenário advém de uma construção da sociedade permeada pela cultura existente das relações de poder desiguais em que a mulher é vista com inferioridade em relação a uma figura masculina, configurando atitudes abusivas e machistas, naturalizadas, que comprometem a integridade da mulher em diferentes vertentes de sua vida28. As consequências da violência são devastadoras, não apenas para as mulheres, mas, também, para toda a família. Elas ultrapassam os atos violentos e seus efeitos imediatos, resultando em uma reprodução geracional dessa violência. Ainda, entender esses mitos torna-se fundamental na intervenção, pois descuidos, ausência de intervenções e equívocos muitas vezes ocorrem com base nesses estereótipos29.

Algumas limitações podem ser consideradas no presente estudo; primeiramente, o delineamento é transversal, o que impede inferir causalidade em nossos achados, principalmente devido a bidirecionalidade do estresse para o VPI. Seguido a isso, pode ser citado o viés de informação, com relação a ocorrência de violência ao longo da vida. Porém, para reduzir esse viés, a pesquisa se preocupou em conduzir as entrevistas em espaço privativo, sem a presença dos parceiros, apenas com as mulheres e a entrevistadora.

CONCLUSÃO

Conclui-se que há uma associação entre a percepção de estresse com a exposição de abuso sexual durante a infância, VPI durante a vida e no período da pandemia de Covid-19. Esses achados são fundamentais para compreender as experiências de violência como fatores que contribuem para a ocorrência do estresse entre as mulheres e destacam a necessidade de intervenções direcionadas para o enfrentamento da violência e apoio às vítimas, bem como trabalhar a prevenção a esse agravo.

Ainda os achados permitem concluir a necessidade de ampliar conhecimento científico sobre a temática abordada, dada a escassez de estudos, principalmente no Brasil, que estudam a percepção do estresse nas mulheres vítimas de VPI, bem como naquelas que sofreram abuso sexual infantil. Estudar a percepção do estresse em mulheres vítimas de violência pelo parceiro é essencial para desenvolver intervenções eficazes, informar/direcionar políticas públicas, bem como melhorar o suporte oferecido por profissionais de saúde, isso inclui fornecer elementos que auxiliem na identificação dos sinais de estresse crônico, associados à violência, e desenvolver planos de tratamento integrados. Assim, resultados positivos de saúde e bem-estar para esse grupo poderão ser obtidos.

Referências bibliográficas

  • 1. Organização Mundial da Saúde. Relatório Mundial sobre Violência e Saúde [Internet]. 2002 [cited 2024 Jun 11]. Available from: https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2019/04/14142032-relatorio-mundial-sobre-violencia-e-saude.pdf
    » https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2019/04/14142032-relatorio-mundial-sobre-violencia-e-saude.pdf
  • 2. Souza MAR, Peres AM, Peres LL, Lopes VJLP, Mercês NNA, Wall ML. Percepção das mulheres em situação de violência sobre o apoio formal: Scoping review. Esc Anna Nery [Internet]. 2021 [cited 2024 Jul 11];25(2):e20200087. Available from: https://doi.org/10.1590/2177-9465-EAN-2020-0087
    » https://doi.org/10.1590/2177-9465-EAN-2020-0087
  • 3. UN Women. COVID-19 and Ending Violence Against Women and Girls [Internet]. 2021 [cited 2024 May 5]. Available from: https://www.unwomen.org/en/digital-library/publications/2020/04/issue-brief-covid-19-and-ending-violence-against-women-and-girls
    » https://www.unwomen.org/en/digital-library/publications/2020/04/issue-brief-covid-19-and-ending-violence-against-women-and-girls
  • 4. Brasil. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências [Internet]. 1990 [cited 2024 Jan 17]. Available from: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
    » http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
  • 5. UN Women. Measuring the Shadow Pandemic: Violence Against Women During COVID-19 [Internet]. 2021 [cited 2024 Jan 17]. Available from: https://data.unwomen.org/publications/vaw-rga
    » https://data.unwomen.org/publications/vaw-rga
  • 6. Lira MOSC, Rodrigues VP, Rodrigues AD, Couto TM, Gomes NP, Diniz NMF. Abuso sexual na infância e suas repercussões na vida adulta. Texto Contexto Enferm [Internet]. 2017 [cited 2024 Jun 11];26(3):e0080016. Available from: https://doi.org/10.1590/0104-07072017000080016
    » https://doi.org/10.1590/0104-07072017000080016
  • 7. Silva AFC, Alves CG, Machado GD, Meine IR, Silva RM, Carlesso JPP. Violência doméstica contra a mulher: contexto sociocultural e saúde mental da vítima. Res Soc Dev [Internet]. 2020 [cited 2024 Jun 11];9(3):e35932363. Available from: https://doi.org/10.33448/rsd-v9i3.2363
    » https://doi.org/10.33448/rsd-v9i3.2363
  • 8. Coker AL, Follingstad DR, Garcia LS, Bush HM. Intimate partner violence and women’s cancer quality of life. Cancer Causes Control [Internet]. 2017 [cited 2024 May 5];28(1):23-39. Available from: https://doi.org/10.1007/s10552-016-0833-3
    » https://doi.org/10.1007/s10552-016-0833-3
  • 9. Oliveira YP, Araujo AF, Riboldi Junior O, Frugoli R. Consequências da violência de gênero na saúde de universitárias: um estudo de caso sobre relacionamentos íntimos abusivos. Physis [Internet]. 2024 [cited 2024 May 5];34. Available from: https://doi:10.1590/S0103-7331202434087pt
    » https://doi:10.1590/S0103-7331202434087pt
  • 10. Khodabakhshi-Koolaee A, Bagherian M, Rahmatizadeh M. Stress and coping strategies in women with and without intimate-partner violence experiences. J Client Cent Nurs Care [Internet]. 2018 [cited 2024 May 5];4(1):29-36. Available from: https://doi.org/10.32598/jccnc.4.1.29
    » https://doi.org/10.32598/jccnc.4.1.29
  • 11. Yim IS, Kofman YB. The psychobiology of stress and intimate partner violence. Psychoneuroendocrinology [Internet]. 2019 [cited 2024 Jul 11];105:9-24. Available from: https://doi.org/10.1016/j.psyneuen.2018.08.017
    » https://doi.org/10.1016/j.psyneuen.2018.08.017
  • 12. Selye H. Stress: a tensão da vida. São Paulo: Ibrasa: Instituição Brasileira de Difusão Cultural; 1959
  • 13. Richter-Levin G, Sandi C. Labels Matter: Is it stress or is it Trauma?. Transl Psychiatry [Internet]. 2021 [cited 2024 Jan 12];11(1):385. Available from: https://doi.org/10.1038/s41398-021-01514-4
    » https://doi.org/10.1038/s41398-021-01514-4
  • 14. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estados: Espírito Santo: censo 2010 [Internet]. 2022 [cited 7 Jun 2024]. Available from: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/es/vitoria.html
    » https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/es/vitoria.html
  • 15. Cohen S, Kamarck T, Mermelstein R. A global measure of perceived stress. J Health Soc Behav [Internet]. 1983 [cited 2024 Jan 12];24(4):385-96. Available from: https://doi.org/10.2307/2136404
    » https://doi.org/10.2307/2136404
  • 16. Luft CDB, Sanches SO, Mazo GZ, Andrade A, et al. Versão brasileira da Escala de Estresse Percebido: tradução e validação para idosos. Rev Saúde Pública [Internet]. 2007 [cited 2024 Feb 20];41(4):606-615. Available from: https://doi.org/10.1590/S0034-89102007000400015
    » https://doi.org/10.1590/S0034-89102007000400015
  • 17. Garcia-Moreno C, Jansen HA, Ellsberg M, Heise L, Watts CH; WHO Multi-country Study on Women's Health and Domestic Violence against Women Study Team. Prevalence of intimate partner violence: findings from the WHO multi-country study on women's health and domestic violence. Lancet [Internet]. 2006 [cited 2024 Feb 20];368(9543):1260-9. Available from: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(06)69523-8
    » https://doi.org/10.1016/S0140-6736(06)69523-8
  • 18. Chen Y, Baram TZ. Toward understanding how early-life stress reprograms cognitive and emotional brain networks. Neuropsychopharmacol [Internet]. 2016 [cited 2024 Jan 12];41(1):197-206. Available from: https://doi.org/10.1038/npp.2015.181
    » https://doi.org/10.1038/npp.2015.181
  • 19. Hughes K, Bellis MA, Hardcastle KA, Sethi D, Butchart A, Mikton C, et al. The effect of multiple adverse childhood experiences on health: a systematic review and meta-analysis. Lancet Public Health [Internet]. 2017 [cited 2024 Feb 20];2(8):e356-e366. Available from: https://doi.org/10.1016/S2468-2667(17)30118-4
    » https://doi.org/10.1016/S2468-2667(17)30118-4
  • 20. Holder J, Lima TL. A violência doméstica e os impactos no desenvolvimento psíquico infantil. In: IX Fórum Rondoniense de Pesquisa; 2023 out 18-20; Paraná, Brasil [Internet]. Rondônia: São Lucas; 2023 [cited 2024 Mar 21]. Available from: https://jiparana.emnuvens.com.br/foruns/article/view/861
    » https://jiparana.emnuvens.com.br/foruns/article/view/861
  • 21. Coker AL, Smith PH, Bethea L, King MR, McKeown RE. Physical health consequences of physical and psychological intimate partner violence. Arch Fam Med [Internet]. 2000 [cited 2024 Mar 21];9(5):451-457. Available from: https://doi.org/10.1001/archfami.9.5.451
    » https://doi.org/10.1001/archfami.9.5.451
  • 22. Ely GE, Otis MD. The impact of intimate partner violence on women's psychological well-being. J Interpers Violence [Internet]. 2011 [cited 2024 Mar 21];26(2):338-354. Available from: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4334227/
    » https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4334227/
  • 23. Anderson KM, Tsuyuki K, Fernandes DeSoto A, Stockman JK. The effect of adverse mental health and resilience on perceived stress by sexual violence history. Int J Environ Res Public Health [Internet]. 2022 [cited 2024 Jan 12];19(8):4796. Available from: https://doi.org/10.3390/ijerph19084796
    » https://doi.org/10.3390/ijerph19084796
  • 24. Evcili F, Demirel G. From the perspective of Turkish women: intimate partner violence and perceived stress level in the COVID-19 pandemic. Women Health [Internet]. 2022 [cited 2024 Mar 21];62(2):108-116. Available from: https://doi.org/10.1080/03630242.2022.2026546
    » https://doi.org/10.1080/03630242.2022.2026546
  • 25. Souza LJ, Farias RC. Violência doméstica no contexto de isolamento social pela pandemia de COVID-19. Serv Soc Soc [Internet]. 2022 [cited 2024 May 5]; 144:213-232. Available from: https://doi.org/10.1590/0101-6628.288
    » https://doi.org/10.1590/0101-6628.288
  • 26. Oliveira W, Magrin J, Andrade A, Micheli D, Carlos D, Fernandez J, et al. Violência por parceiro íntimo em tempos da COVID-19: scoping review. Psicol Saúde Doenças [Internet]. 2020 [cited 2024 Apr 28];21(3):606-623. Available from: https://doi.org/10.15309/20psd210306
    » https://doi.org/10.15309/20psd210306
  • 27. Vieira PRV, Garcia LP, Maciel ELN. Isolamento social e o aumento da violência doméstica: o que isso nos revela? Rev Bras Epidemiol [Internet]. 2020 [cited 2024 Apr 28];23:E200033. Available from: https://doi.org/10.1590/1980-549720200033
    » https://doi.org/10.1590/1980-549720200033
  • 28. Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” (CEJAM). Estresse em números: confira causas, impactos e dicas para alívio diário [Internet]. 2024 [cited 2024 Sept 30]. Available from: https://cejam.org.br/
    » https://cejam.org.br/
  • 29. Carneiro DG, Souza ACD, Barbosa RN. Relatos de experiência de mulheres vítimas de violência doméstica: uma revisão de estudos publicados no estado da Bahia. Revista Scientia [Internet]. 2024 [cited 2024 May 5];9(1):61-74. Available from: https://revistas.uneb.br/index.php/scientia/article/view/18934
    » https://revistas.uneb.br/index.php/scientia/article/view/18934

NOTAS

NOTAS

ORIGEM DO ARTIGO

Extraído da dissertação - Percepção de estresse entre mulheres residentes no município de Vitoria e os fatores associados, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, da Universidade Universidade Federal do Espírito Santo, em 2025.

FINANCIAMENTO

Edital 09/2020 - Processo 163/2021. Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES).

APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA

Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo, parecer n. 4.974.080/2021.

CONFLITO DE INTERESSES

Não há conflito de interesses.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Dados da pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.

AUTOR CORRESPONDENTE

Franciéle Marabotti Costa Leite. francielemarabotti@gmail.com

EDITORES

Editores Associados: Manuela Beatriz Velho. Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Jun 2025
  • Aceito
    01 Dez 2025
location_on
Universidade Federal de Santa Catarina, Programa de Pós Graduação em Enfermagem Campus Universitário Trindade, 88040-970 Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, Tel.: (55 48) 3721-4915 / (55 48) 3721-9043 - Florianópolis - SC - Brazil
E-mail: textoecontexto@contato.ufsc.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro