RESUMO
Introdução: A residência é o principal modelo de especialização médica no Brasil e fundamenta-se no treinamento supervisionado e na certificação profissional. Apesar de essencial à formação, enfrenta desigualdades regionais e descompasso entre oferta de especialistas e demandas do SUS, exigindo políticas orientadas por equidade e necessidades sociais.
Objetivo: Este estudo descreve os fatores associados à escolha da especialidade médica entre estudantes de Medicina da Universidade de Brasília, considerando características sociodemográficas, acadêmicas e vocacionais.
Método: Trata-se de um estudo transversal com amostra probabilística estratificada por ciclo do curso (inicial, intermediário e internato). Dos 350 estudantes elegíveis, 202 (58%) responderam ao questionário eletrônico. Aplicou-se procedimento de ponderação para correção de não resposta e preservação da representatividade dos estratos. O instrumento contemplou variáveis sociodemográficas, acadêmicas, socioeconômicas e fatores de influência na escolha da especialidade em escala Likert. As análises incluíram frequências absolutas e relativas, intervalos de confiança de 95% (IC95%), testes t de Student, Mann-Whitney e qui-quadrado de Pearson. Adotou-se nível de significância de 5%.
Resultado: A maioria dos participantes era do sexo masculino (54,0%) e tinha entre 21 e 24 anos (52,0%). O ingresso ocorreu principalmente pelo sistema de cotas (48,2%), e mais da metade cursou ensino médio em escolas públicas (52,1%). A maioria (96,7%) pretende realizar residência médica, com destaque para as áreas clínica (50,6%) e cirúrgica (25,4%). Observou-se associação significativa entre ciclo do curso e área de preferência (p = 0,001), com aumento da escolha pela área cirúrgica (62,0%) e redução da indefinição (10%) no internato. Diferenças por sexo indicaram maior valorização do tempo para lazer entre mulheres (p = 0,036).
Conclusão: A escolha da especialidade foi influenciada pela qualidade de vida e pela prática profissional, destacando a formação médica socialmente responsável e alinhada ao SUS.
Palavras-chave:
Educação Médica; Estudantes de Medicina; Residência Médica; Especialidades Médicas; Estudo Transversal
ABSTRACT
Introduction: Residency is the main model of medical specialization in Brazil, based on supervised training and professional certification. Although essential to medical education, it faces regional inequalities and a mismatch between the supply of specialists and the demands of the Unified Health System (SUS), requiring policies guided by equity and social needs.
Objective: To describe the factors associated with the choice of medical specialty among medical students at the University of Brasília, considering sociodemographic, academic, and vocational characteristics.
Methods: A cross-sectional study was conducted using a stratified probabilistic sample by course stage (early, intermediate, and internship). Among 350 eligible students, 202 (58%) responded to the electronic questionnaire. A weighting procedure was applied to correct for nonresponse and preserve the representativeness of strata. The instrument included sociodemographic, academic, and socioeconomic variables, as well as influencing factors for specialty choice assessed on a Likert scale. Analyses comprised absolute and relative frequencies, 95% confidence intervals (95%CI), and Student’s t, Mann-Whitney, and Pearson’s Chi-square tests. A 5% significance level was adopted.
Result: Most participants were male (54.0%) and aged between 21 and 24 years (52.0%). Admission occurred mainly through the quota system (48.2%), and more than half attended public high schools (52.1%). The majority (96.7%) intended to pursue a medical residency, with a predominance of clinical (50.6%) and surgical (25.4%) areas. A significant association was found between course stage and preferred area (p = 0.001), with an increase in surgical preference (62.0%) and a decrease in indecision (10%) during the internship. Gender differences indicated a higher appreciation of leisure time among women (p = 0.036).
Conclusion: Specialty choice was influenced by quality of life and professional practice, highlighting socially responsible medical training aligned with the Brazilian Unified Health System (SUS).
Keywords:
Medical Education; Medical Students; Internship and Residency; Medical Specialties; Cross-sectional Study
INTRODUÇÃO
A residência médica (RM) no Brasil é regulamentada pela Lei nº 6.932, de 7 de julho de 19811, configurando-se como modalidade de especialização destinada exclusivamente a egressos do curso de Medicina. Fundamenta-se no treinamento supervisionado em serviço e constitui a principal via de certificação das especialidades médicas, cujas atualizações são normatizadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em conformidade com a atribuição conferida pela Lei nº 3.268, de 20 de setembro de 19562.
Desde 1977, o credenciamento dos programas de RM é conduzido pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM)3, que estabelece parâmetros alinhados ao perfil socioepidemiológico da população brasileira e aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS)4. Em 2024, o CFM, por meio da Comissão Mista de Especialidades, reconheceu oficialmente 55 especialidades médicas, cujo período de formação varia de dois a cinco anos5.
Embora não constitua requisito obrigatório para o exercício da profissão médica, a RM é amplamente reconhecida como o “padrão ouro” para inserção e consolidação no mundo do trabalho. Nesse contexto, a maioria dos egressos opta por ingressar na RM, cuja escolha da especialidade configura-se como um processo complexo, influenciado por múltiplos fatores, tais como aptidão individual, estilo de vida almejado, condições do mercado de trabalho, expectativas de retorno financeiro, prestígio social, grau de competitividade dos programas e nível de dificuldade para aprovação em determinadas áreas6),(7.
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, marcado por contextos locorregionais que dialogam com especificidades sociais, econômicas, culturais, políticas, ambientais e epidemiológicas, torna-se imprescindível compreender as singularidades que permeiam a escolha da RM. A Universidade de Brasília (UnB) foi pioneira na implementação de políticas afirmativas de acesso, incluindo cotas para negros, estudantes de baixa renda, indígenas e pessoas com mais de 60 anos. Dessa forma, a instituição promove a convergência de estudantes oriundos de distintas origens e diferentes contextos socioculturais, tanto na graduação quanto na pós-graduação.
Ordenar a formação de recursos humanos na área de saúde é prerrogativa constitucional, inscrita no artigo 200 da Constituição Federal8. Cabe ao SUS desenvolver políticas de incentivo às especialidades médicas necessárias ao enfrentamento das iniquidades em saúde, em resposta às necessidades sociais.
A distribuição de médicos no Brasil evidencia marcante desigualdade territorial: alta concentração em capitais e grandes municípios, redução progressiva nas cidades de médio porte e escassez crítica nos pequenos municípios9. Esse padrão reforça disparidades no acesso à atenção em saúde, sobretudo nas localidades com menos de dez mil habitantes.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reporta uma média de 3,7 médicos por mil habitantes para os seus países-membros. Ainda que as diversidades brasileiras não permitam comparação aos parâmetros da OCDE, cabe sinalizar que o Brasil possui uma taxa de 2,98 médicos por mil habitantes9.
O Índice de Distribuição de Médicos Capital/Interior (IDCI), métrica específica do Brasil para analisar a concentração de médicos em centros urbanos versus áreas rurais, revela forte concentração de profissionais nas capitais em relação ao interior, com média nacional de 3,66, indicando que as capitais concentram 366% mais médicos por mil habitantes em comparação aos municípios do interior de cada estado. As disparidades regionais são expressivas, destacando-se o IDCI do Nordeste (7,32) e do Norte (5,07) como as regiões de maior desigualdade de distribuição de médicos capital/interior, enquanto Sul (4,37), Centro-Oeste (4,27) e Sudeste (2,78) apresentam os menores índices, ou seja, concentram menor número de médicos nas capitais9.
O incremento de médicos especialistas em uma determinada área não reflete, necessariamente, a demanda deles no SUS. Um exemplo é a medicina de família e comunidade (MFC) que registrou crescimento de 549,7% em 13 anos, passando de 2.392 para 15.542 especialistas, o que foi impulsionado por políticas de expansão da RM. Apesar disso, o aumento da MFC foi insuficiente diante das necessidades da atenção primária à saúde do SUS - mais de 50 mil equipes de saúde da família em 2024 - e parte das vagas de residência permaneceu ociosa pela baixa adesão. Apenas a especialidade de clínica médica supera o marco de 50 mil especialistas no país9.
Nesse sentido, a escolha de especialidades médicas pelos estudantes é crucial para atender às necessidades de saúde da população, especialmente no Brasil, onde há escassez e má distribuição de médicos. As influências dessa escolha afetam não apenas o egresso, mas também toda a sociedade. A opção pelas áreas básicas, como clínica médica, cirurgia geral e pediatria, pode ser influenciada por serem pré-requisito para acessar outras especialidades. O conhecimento mais amplo ou específico sobre a especialidade, o contato com o paciente, o local de atuação profissional e o estilo de vida após a RM são fatores determinantes, ao passo que a qualidade de vida, o retorno financeiro, a relação médico-paciente e as influências de terceiros determinam outros egressos na escolha da especialidade médica10.
A literatura internacional, especialmente norte-americana e europeia, tem documentado amplamente as motivações de estudantes em diferentes países, com destaque para aspectos como retorno financeiro, qualidade de vida, prestígio social, relação médico-paciente, oportunidades acadêmicas e carga horária da residência11)-(18. Em contrapartida, no Brasil, embora existam estudos sobre determinantes da escolha de especialidade10),(19)-(31, muitos se concentram em instituições do eixo Sul-Sudeste, havendo ainda lacunas de conhecimento sobre universidades federais localizadas em outras regiões do país.
Diante desse cenário, o presente estudo buscou analisar os fatores que influenciam a escolha da especialidade médica entre os estudantes da UnB, localizada na região Centro-Oeste, além de identificar fatores dentro da graduação que aproximam ou afastam os discentes de determinada especialidade e analisar fatores socioeconômicos e familiares (como sexo, idade, status de relacionamento e renda familiar) que podem influir na escolha da especialidade médica.
MÉTODO
Delineamento e população-alvo
Foi realizado um estudo transversal, do tipo inquérito, tendo como população-alvo os estudantes regularmente matriculados no curso de Medicina da UnB. Incluíram-se discentes dos três ciclos do curso: inicial, intermediário e internato.
Questões éticas
A pesquisa seguiu os princípios éticos da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. A participação foi voluntária, com aceite registrado via Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Assegurou-se o anonimato dos respondentes. O Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Ciências da Saúde da UnB aprovou o projeto: Parecer nº 7.266.175.
Amostragem e tamanho da amostra
Utilizou-se a amostragem probabilística estratificada, considerando como estratos os três ciclos do curso. A amostra elegível foi composta de 350 estudantes, dos quais 202 responderam ao questionário eletrônico, resultando em uma taxa de resposta global de 58%. As taxas de resposta específicas foram: 49% no ciclo inicial (44/90), 69% no ciclo intermediário (85/124) e 54% no internato (73/136).
Para minimizar potenciais vieses de não resposta e garantir estimativas mais representativas, adotou-se procedimento de ponderação baseado no inverso da probabilidade de resposta em cada estrato. Esse mesmo procedimento de ponderação foi mantido em todas as análises subsequentes, o que permitiu atribuir maior peso aos grupos sub-representados e preservar a proporcionalidade da população estudada.
Instrumento de coleta de dados
A coleta de dados foi realizada por meio de questionário eletrônico autoaplicado, elaborado especificamente para este estudo. O instrumento contemplou questões sociodemográficas (idade, sexo, estado civil, raça/cor), características acadêmicas (ciclo do curso, forma de ingresso) e a avaliação da importância de diferentes fatores na escolha da especialidade médica, em escala Likert de 1 (pouco importante) a 5 (muito importante).
Variáveis de estudo
O instrumento contemplou variáveis sociodemográficas, incluindo sexo (masculino, feminino), faixa etária (18-20, 21-24, 25-29, ≥ 30 anos), estado civil/relacionamento (solteiro, namorando há menos de dois anos, namorando há mais de dois anos, noivo ou casado) e raça/cor da pele (branca, parda, preta, amarela/indígena). Também foram investigadas variáveis socioeconômicas e educacionais, como renda familiar mensal (até R$ 5 mil, entre R$ 5 e 10 mil, entre R$ 10 e 15 mil, entre R$ 15 e 20 mil, entre R$ 20 e 30 mil, acima de R$ 30 mil), tipo de escola de ensino médio frequentada (pública, particular, mista) e forma de ingresso na universidade (sistema universal, sistema de cotas, transferência).
Nos âmbitos acadêmico e vocacional, avaliaram-se os seguintes fatores: o ciclo do curso em que o estudante se encontrava (básico, clínico, internato), a intenção de realizar especialização/RM (sim, ainda não decidido), a especialidade pretendida (sim, múltiplas opções, não tem em mente), a área de interesse (clínica, cirúrgica, não sabe/mista), se a especialidade correspondia a uma área de acesso direto (sim, não, não sabe) e o momento em que ocorreu a escolha (antes do ingresso, ciclo básico, ciclo clínico, internato, ainda não decidiu). Foram coletadas ainda informações sobre influência familiar na carreira médica, incluindo presença de mãe médica, pai médico ou outros parentes médicos, além da intenção de seguir a mesma especialidade que o familiar (sim, não, não sabe).
Análise estatística
Os dados foram analisados de forma descritiva, com cálculo de frequências absolutas (n) e relativas (%), e intervalos de confiança de 95% (IC95%). As comparações entre os grupos segundo o sexo foram realizadas utilizando testes de hipóteses adequados à natureza das variáveis. Inicialmente, verificou-se a distribuição dos escores atribuídos a cada fator de importância por meio do teste de Shapiro-Wilk, a fim de avaliar a normalidade. Para variáveis com distribuição aproximadamente normal, aplicaram-se testes t de Student para amostras independentes. Para variáveis com distribuição não normal, recorreu-se ao teste não paramétrico de Mann-Whitney (Wilcoxon rank-sum test). Para as variáveis categóricas, as diferenças entre grupos foram avaliadas por meio do teste qui-quadrado de Pearson. Em todas as análises, adotou-se nível de significância de 5% ( = 0,05).
Todas as estimativas foram calculadas e ponderadas pelos pesos amostrais, utilizando o módulo svy do pacote survey no software R, versão 5.0.
RESULTADO
Participaram do estudo 202 estudantes de Medicina da UnB, distribuídos entre os ciclos básico (n = 68; 33,7%), clínico (n = 61; 30,2%) e internato (n = 73; 36,1%). A taxa global de resposta foi de 58%, variando de 49% no ciclo básico a 69% no clínico, com correção por ponderação para diferenças de representatividade. A amostra foi composta predominantemente de estudantes de 21 a 24 anos (n = 108; 52,0%) e do sexo masculino (n = 109; 54,0%). Quanto aos perfis socioeconômico e educacional, a renda familiar concentrou-se entre cinco e 20 mil reais (n = 97; 47,8%), e o ensino médio foi realizado em escolas públicas (n = 104; 52,1%) ou particulares (n = 94; 46,0%). O ingresso ocorreu principalmente pelo sistema de cotas (n = 97; 48,2%), seguido pelo sistema universal (n = 77; 38,0%) e por transferência (n = 28; 13,7%). Apenas seis (2,9%) estudantes tinham mãe médica, e cinco (2,4%), pai médico, embora quase um terço (n = 59; 29,6%) relatasse possuir algum parente médico. A grande maioria (n = 196; 96,7%) declarou intenção de realizar RM, com destaque para a preferência por especialidades da área clínica (n = 103; 50,6%).
A preferência por grandes áreas médicas demonstrou uma variação expressiva ao longo da graduação. A análise estatística confirmou uma associação significativa entre o ciclo do curso e a área de preferência (teste qui-quadrado de Pearson; χ²(4) = 18.2596; valor de p = 0,001). Conforme ilustrado no Gráfico 1, predominaram, no ciclo básico, a indefinição (40%) e a preferência pela área cirúrgica (40%), enquanto a área clínica foi menos citada (21%). Com o avanço no curso, a preferência pela área cirúrgica aumentou de forma acentuada, alcançando 62% no internato. A área clínica também cresceu, representando 29% das escolhas nessa fase, ao passo que a indefinição diminuiu drasticamente para 10%.
Evolução da preferência por grandes áreas médicas (clínica e cirúrgica), segundo os ciclos do curso de Medicina.
A avaliação da importância dos fatores que influenciam a escolha da especialidade é apresentada no Gráfico 2. Aspectos relacionados à qualidade de vida e à prática profissional receberam os maiores escores médios, especialmente vida após a residência, relação médico-paciente, interação com outros médicos e tempo para lazer. Em contraste, fatores ligados à influência externa, como conselho de parentes, conselho de amigos e ter um especialista na família, foram os menos valorizados.
Percepção dos estudantes sobre a relevância de fatores que influenciam a escolha da especialidade médica.
A estratificação por sexo revelou diferenças de percepção estatisticamente significativas (Gráfico 3). Os estudantes do sexo feminino atribuíram maior importância a fatores relacionados ao estilo de vida, como o tempo para lazer (valor de p = 0,036). Os estudantes do sexo masculino destacaram fatores de retorno financeiro e status, como vida após a residência (valor de p = 0,489), recompensa financeira em longo prazo (valor de p = 0,639) e prestígio (valor de p = 0,406). Esses fatores não apresentaram diferença estatisticamente significativa entre os sexos.
Análise comparativa da importância de fatores na escolha da especialidade médica, segundo o sexo dos estudantes.
A distribuição das especialidades médicas mais citadas está apresentada no Gráfico 4. Observou-se que a maioria das indicações se concentrou em poucas especialidades: clínica médica foi a mais frequentemente mencionada (23%), seguida por cirurgia geral (15%) e pediatria (11%). As três especialidades mais citadas acumularam cerca de metade das respostas, evidenciando uma concentração das preferências/indicações nas áreas mencionadas. Em oposição, especialidades como geriatria e endocrinologia foram as menos referidas (< 3% cada).
Distribuição percentual da intenção de escolha por especialidade médica entre os estudantes.
DISCUSSÃO
Os achados deste estudo confirmam, em parte, tendências já descritas na literatura nacional e internacional, mas também revelam nuances próprias do contexto da UnB, oferecendo contribuições originais.
Primeiramente, observou-se que a relação médico-paciente foi o fator mais valorizado pelos estudantes em todos os ciclos, com médias consistentemente altas. Esse resultado está em consonância com estudos prévios que apontam o vínculo interpessoal como elemento central na escolha profissional12),(23. A manutenção dessa valorização ao longo de todo o curso contrasta, entretanto, com trabalhos que evidenciaram queda progressiva do idealismo médico e maior peso para fatores pragmáticos, como retorno financeiro, conforme os estudantes avançam na graduação11),(14.
Outro ponto relevante foi a importância atribuída ao tempo para lazer, que se manteve elevada durante toda a graduação, atingindo seu pico no ciclo clínico. Esse achado reforça uma tendência já relatada no Brasil e no exterior de que as novas gerações de médicos buscam maior equilíbrio entre vida pessoal e carreira18),(28. O dado se aproxima do encontrado por Costa et al.22, que associaram mudanças curriculares e vivências acadêmicas à valorização crescente da qualidade de vida. Assim, infere-se que a chamada “geração millennial” de médicos tende a valorizar o autocuidado e a flexibilidade, em oposição ao modelo de dedicação integral predominante em gerações anteriores.
Por sua vez, a baixa valorização do prestígio social e o não retorno financeiro imediato representam um achado que diverge da literatura internacional, pois status e remuneração são fatores centrais na decisão da especialidade9),(16),(17. No presente estudo, ambos os fatores apresentaram médias mais baixas e em queda progressiva ao longo dos ciclos. Esse resultado pode refletir características culturais brasileiras, nas quais a imagem social do médico vem passando por transformações recentes, bem como um contexto socioeconômico em que a estabilidade da profissão médica é considerada “garantida”, reduzindo a necessidade de enfatizar prestígio ou retorno imediato como critério decisório.
Outro achado relevante foi a influência da presença de médicos na família. Os estudantes com familiares médicos atribuíram menor importância a fatores como recompensa financeira, prestígio social, tempo para lazer e até mesmo à relação médico-paciente, quando comparados aos que não possuem médicos na família. Esse resultado corrobora os achados de Alencar et al.19 e Corsi et al.29, que sugerem que a convivência com a prática médica tende a reduzir expectativas idealizadas e romantizadas sobre a profissão.
As diferenças de gênero encontradas também estão em linha com a literatura. As mulheres atribuíram maior importância ao tempo livre e à relação interpessoal com pacientes, enquanto os homens valorizaram mais o prestígio social e o retorno financeiro. Estudos anteriores apontam o mesmo padrão15),(23),(27. Contudo, neste estudo não houve associação estatisticamente significativa entre o gênero e a preferência por especialidades clínicas ou cirúrgicas, o que sugere um possível deslocamento das tendências vocacionais e merece investigação futura.
A análise por ciclo do curso mostrou tendências interessantes, com queda progressiva da importância atribuída ao prestígio social e ao retorno financeiro imediato, bem como à estabilidade da valorização da relação médico-paciente, o que difere de estudos internacionais que descrevem o processo inverso11),(16. Isso pode indicar especificidades do contexto brasileiro, mas também pode ser reflexo do caráter transversal da pesquisa, em que diferentes estratos de estudantes foram avaliados simultaneamente.
Por fim, a alta proporção de estudantes indecisos (31%) reforça um aspecto crítico já relatado em outras pesquisas nacionais25),(26: a necessidade de estratégias estruturadas de orientação vocacional desde os primeiros anos da graduação. Considerando que grande parte das escolhas ocorre no ciclo clínico, conforme nossos dados também demonstraram, intervenções educativas e experiências práticas nesse período podem ter impacto decisivo no direcionamento profissional.
Limitações do estudo
Este estudo apresenta limitações inerentes ao seu delineamento transversal que impedem inferências causais ou a interpretação das diferenças observadas entre os ciclos do curso como mudanças individuais ao longo do tempo. As comparações entre os estudantes dos ciclos inicial, intermediário e do internato refletem perfis distintos de grupos avaliados em um mesmo momento, o que está sujeito a um viés de temporalidade e efeito de coorte.
Ademais, apesar da amostragem probabilística estratificada, a taxa de resposta global de 58% pode introduzir um viés de seleção e de não resposta, particularmente se estudantes indecisos ou menos engajados academicamente estiverem sub-representados. Para mitigar esse risco, foi adotado o procedimento de ponderação pelo inverso da probabilidade de resposta em cada estrato, preservando a proporcionalidade da população elegível.
O uso de questionário autoaplicado e anonimizado reduz, mas não elimina, possíveis vieses de informação e de desejabilidade social, especialmente na declaração de preferências por especialidades mais prestigiadas.
Por fim, reconhece-se que a preferência por especialidade é um constructo dinâmico, podendo sofrer modificações ao longo da trajetória formativa, o que reforça a necessidade de estudos longitudinais para aprofundar a compreensão desses processos.
Contribuições e avanços do estudo
Apesar das limitações apresentadas, o estudo apresenta contribuições relevantes para a educação médica e para o debate sobre responsabilidade social na formação de especialistas. Destaca-se o uso de amostragem probabilística estratificada, com correção por ponderação amostral, estratégia ainda pouco explorada em estudos nacionais sobre escolha de especialidade médica.
A análise integrada de fatores sociodemográficos, acadêmicos e vocacionais, associada à estratificação por ciclos do curso, permite iluminar momentos críticos da formação nos quais as preferências se consolidam ou se modificam. Adicionalmente, ao focalizar uma universidade pública da região Centro-Oeste, marcada por forte política de ações afirmativas, o estudo contribui para reduzir lacunas da literatura predominantemente concentrada no eixo Sul-Sudeste.
Os achados reforçam a centralidade de fatores relacionados à qualidade de vida e à prática profissional, e dialogam diretamente com o debate contemporâneo sobre alinhamento da formação médica às necessidades do SUS, oferecendo subsídios empíricos para políticas de orientação vocacional, desenho curricular e estratégias de provimento de especialistas socialmente comprometidos.
CONCLUSÃO
A escolha da especialidade médica entre os estudantes da UnB mostrou-se mais influenciada por fatores relacionados à qualidade de vida e à identificação com a prática profissional do que por status ou retorno financeiro. A vivência prática ao longo do curso teve papel decisivo nas escolhas, evidenciando a importância de estratégias permanentes de orientação vocacional e de inserção precoce em cenários diversificados do SUS. Esses resultados podem subsidiar estratégias institucionais de orientação vocacional e planejamento de ofertas formativas alinhadas às necessidades sociais e ao SUS.
A elevada proporção de estudantes ainda indecisos quanto à especialidade reforça a necessidade de processos formativos que estimulem a reflexão crítica sobre o papel social do médico e a corresponsabilidade na redução das desigualdades em saúde. As variações nas preferências ao longo dos ciclos do curso indicam que estágios e experiências acadêmicas exercem influência central nas decisões.
Recomenda-se a realização de estudos longitudinais e multicêntricos que investiguem como as escolhas se articulam às demandas sociais e às políticas de provimento de especialistas no Brasil, contribuindo para a formação de médicos socialmente comprometidos com a equidade e com o fortalecimento do SUS.
REFERÊNCIAS
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Avaliado pelo processo de double blind review.
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FINANCIAMENTO
Bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para a estudante Ariel Sousa Freitas, via Programa de Iniciação Científica (ProIC) da UnB, 2024-2025.





Fonte: Elaborado pelos autores.
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Fonte: Elaborado pelos autores.
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