RESUMO:
Objetivo: construir e validar um cenário de simulação clínica voltado para o ensino do gerenciamento de conflitos para estudantes de graduação em enfermagem.
Método: estudo metodológico no qual construiu-se um cenário de gerenciamento de conflitos, na cidade de São Paulo, SP, Brasil, em 2022, a partir da revisão de literatura e da experiência pedagógica dos pesquisadores. Realizou-se validação de conteúdo com juízes da área por meio da técnica Delphi. Os dados foram analisados com Índice de Validade de Conteúdo (IVC>80%).
Resultados: o cenário descreve a cena de um estagiário de enfermagem que solicita ao técnico de enfermagem realizar um banho no leito de um paciente. Tal fato é permeado por conflitos interpessoais. A validação de conteúdo contou com oito experts em simulação clínica e dois estudantes de enfermagem. Houve três “rounds”, chegando ao IVC 100%.
Conclusão: o cenário construído foi validado e contribuirá para o ensino prático desta competência na graduação.
DESCRITORES:
Educação em Enfermagem; Resolução de Conflitos; Processos Grupais; Competência Profissional; Simulação Realística.
HIGHLIGHTS
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Cenário de simulação para o ensino de gerenciamento de conflitos.
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Estratégia para o ensino de competências gerenciais.
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Validação de cenário de simulação para uso em ambiente acadêmico.
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Metodologia ativa para ensino e aprendizagem de gestão de conflitos.
ABSTRACT
Objective: Develop and validate a clinical simulation scenario for undergrad nursing students to learn conflict management.
Method: Methodological study in which a conflict management scenario was constructed in the city of São Paulo, SP, Brazil, in 2022, based on the literature review and the pedagogical experience of the researchers. Content validation was carried out with judges in the field using the Delphi technique. The data was analyzed with a Content Validity Index (CVI>80%).
Results: The scenario describes the scene of a nursing trainee asking the nursing technician to bathe a patient in bed. This is permeated by interpersonal conflicts. The content validation involved eight experts in clinical simulation and two nursing students. There were three “rounds,” reaching IVC 100%.
Conclusion: The scenario was validated and will contribute to the practical teaching of this skill in undergraduate courses.
HIGHLIGHTS
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Simulation scenario for teaching conflict management.
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Strategy for teaching management skills.
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Validation of a simulation scenario for use in an academic environment.
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Active methodology for teaching and learning conflict management.
RESUMEN
Objetivo: Construir y validar un escenario de simulación clínica destinado a enseñar la gestión de conflictos a estudiantes universitarios de enfermería.
Método: Estudio metodológico en el que se construyó un escenario de gestión de conflictos en la ciudad de São Paulo, SP, Brasil, en 2022, a partir de la revisión bibliográfica y de la experiencia pedagógica de los investigadores. La validación del contenido se llevó a cabo con jueces sobre el terreno mediante la técnica Delphi. Los datos se analizaron con un Índice de Validez del Contenido (IVC>80%).
Resultados: el escenario describe la escena de un practicante de enfermería que pide al técnico de enfermería que bañe a un paciente en la cama. Esto está impregnado de conflictos interpersonales. En la validación del contenido participaron ocho expertos en simulación clínica y dos estudiantes de enfermería. Hubo tres rondas, alcanzando el IVC al 100%.
Conclusión: el escenario fue validado y contribuirá a la enseñanza práctica de esta habilidad en los cursos de licenciatura.
ASPECTOS DESTACADOS
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Escenario de simulación para la enseñanza de la gestión de conflictos.
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Estrategia para la enseñanza de las competencias gerenciales.
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Validación de un escenario de simulación para su uso en un entorno académico.
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Metodología activa para la enseñanza y el aprendizaje de la gestión de conflictos.
INTRODUÇÃO
As relações humanas são permeadas por conflitos, seja no ambiente familiar, seja no ambiente profissional. Os enfermeiros precisam ser competentes para gerenciar os conflitos, pois um ambiente em desarmonia pode gerar problemas relacionados à autoestima, prestação de cuidados deficitários, implicações no clima organizacional e nas relações profissionais, além do prejuízo à reputação da instituição1-2.
No processo de formação, desenvolver competências gerenciais e interprofissionais é inerente à boa prática profissional do enfermeiro. Nesse contexto, considera-se fundamental o desenvolvimento das competências de liderança, comunicação e trabalho em equipe, de modo que atuem fortemente na resolução dos conflitos1.
Há estratégias que são utilizadas para a gestão de conflitos, que são: 1) evitação, na qual existe pouca preocupação consigo próprio e com os demais; 2) acomodação, na qual existe pouca preocupação consigo próprio e alta preocupação com os demais; 3) dominação, na qual existe uma alta preocupação consigo próprio e pouca preocupação com os demais; 4) conciliação, na qual nota-se uma preocupação consigo próprio e com os demais de forma mediana; e 5) integração, na qual existe alta preocupação consigo próprio e com os demais, necessitando de colaboração entre os envolvidos3.
No contexto da enfermagem, os conflitos também podem ser vistos em diferentes perspectivas. Se forem observados como algo negativo, inevitavelmente, o clima organizacional e as relações interpessoais são tocadas e abaladas. No entanto, no que diz respeito aos aspectos positivos, entende-se como uma oportunidade de aprendizado, de discutir procedimentos, métodos e materiais em uma dada situação, sendo que muitas vezes a responsabilidade de fazer a ligação entre o conflito e o momento de aprendizado é do enfermeiro, que precisa ser assertivo ao se comunicar e promover esses momentos de trocas entre os envolvidos2.
Conforme mencionado no parágrafo anterior, a gestão de conflitos na enfermagem é uma atividade complexa e, para tal, requer o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes desde os primeiros anos da graduação. No entanto, há lacunas relacionadas à formação como podemos observar nos achados de um estudo que traz à tona a necessidade de investimento na capacitação deste profissional para mediação de conflitos, comunicação e relacionamento interpessoal. Além disso, apontam a carência de discussões sobre o assunto com estudantes durante a graduação em enfermagem, além da preparação de professores para o aproveitamento de situações que exponham o aluno a conflitos2.
Espera-se da enfermagem, hodiernamente, que o conhecimento seja explorado de forma inovadora, dinâmica, colaborativa, e que proporcione mudanças, gerando reflexões e inovações que promovam benefícios para os usuários, profissionais e organizações de saúde. A prática reflexiva, neste contexto, promove a segurança e a qualidade dos serviços de saúde prestados, e favorece a formação de profissionais críticos e comprometidos4.
Diante disso, o uso de cenários de simulação clínica voltados à gestão de conflitos, promove a conexão entre o conhecimento teórico estudado e a prática engajada a processos atitudinais constituindo assim o desenvolvimento da competência desejada. Os estudantes aprendem a reconhecer o conflito, a promover uma comunicação aberta, e desenvolver a habilidade de lidar com as diferenças de cada pessoa envolvida, tendo uma experiência concreta de aprendizado, refletindo sobre suas ações5.
Em um estudo realizado em 2018, proporcionou-se aos estudantes de enfermagem experiências relacionadas ao aprendizado de gerenciamento de conflitos através da dramatização. Após a teatralização do gerenciamento de conflitos foi possível notar uma melhora no conhecimento teórico. A estratégia de ensino fundamentada na dramatização possibilita que o futuro profissional se desenvolva para o enfrentamento de conflitos5.
Por fim, o uso de cenários de simulação clínica insere o estudante em ambientes e situações muito semelhantes à realidade, tirando-o da zona de conforto, proporcionando pensamentos, reflexões e desenvolvimento de competências esperadas de um bom profissional6. As diretrizes curriculares nacionais do curso de graduação em enfermagem trazem como uma possibilidade o uso de atividades educacionais que fazem a articulação entre a teoria e a prática, como é o caso da simulação. Trata-se de um recurso pedagógico voltado para a aprendizagem experiencial, garantindo o desenvolvimento de habilidades e competências de modo seguro, levando em conta que não expõe os participantes a riscos evitáveis. Na ótica da clínica, a simulação pode ser entendida como uma metodologia ativa, sendo realizada de forma estruturada, padronizada e fundamentada na literatura7.
Diante do exposto, este estudo teve como objetivo construir e validar um cenário de simulação clínica voltado para o ensino do gerenciamento de conflitos para graduandos de enfermagem.
MÉTODO
Trata-se de um estudo metodológico de construção e validação de cenário de simulação clínica para o ensino do gerenciamento de conflitos para estudantes de enfermagem contemplando as etapas de: 1) Construção do cenário a partir da experiência pedagógica dos pesquisadores e busca na literatura; 2) Validação do conteúdo considerando os critérios de inclusão e exclusão dos juízes, envio do convite formal junto ao Termo de Consentimento bem como do instrumento de coleta de dados contemplando os itens de avaliação do cenário. 3) Análise das respostas a partir do IVC (Índice de Validade de Conteúdo).
Inicialmente foi realizada uma revisão da literatura nas bases Lilacs, Scielo e PubMed, utilizando os descritores “Educação em Enfermagem”, “Resolução de Conflitos”, “Processos Grupais”, “Competência Profissional” e “Simulação Realística”, tendo como critérios de seleção: abordar a construção e/ou a validação de cenários de simulação, que estivessem disponíveis em sua integralidade, nos idiomas português, inglês e espanhol, nos últimos cinco anos. A partir dos resultados encontrados foram definidas as referências utilizadas na construção e validação do cenário, que são: Manual de Simulação Clínica do Conselho Regional de Enfermagem; Fabri et al; e INACSL Standards Committee8-10.
Considerando os dados encontrados na literatura e a experiência pedagógica dos pesquisadores construiu-se o cenário para aplicação com estudantes de enfermagem. O contexto proposto centra-se no fato de que o estagiário de enfermagem solicita a um técnico de enfermagem da equipe realizar um banho no leito. Desde a solicitação da tarefa, o ambiente é permeado por conflitos interpessoais. O objetivo do cenário é avaliar os conhecimentos teóricos do estudante sobre gestão de conflitos, bem como sua capacidade de negociar e de comunicar-se de forma assertiva, com inteligência emocional, escuta empática, senso de ética e justiça, trabalho em equipe, colaboração, união e agilidade na resolução de problemas2.
Um script foi construído para nortear o ator na condução do cenário de simulação com a finalidade de sistematizar e organizar o ambiente simulado, estimulando o participante a cumprir os objetivos propostos, sendo separado por etapas, que são: teorização, briefing, o cenário propriamente dito e o debriefing.
Na teorização ocorre uma sensibilização sobre a temática, com exposição de vídeos, artigos e conteúdos pré-selecionados que façam referência à temática abordada. Posteriormente, ocorre o pré-briefing, que é um acordo entre os participantes para definir quem vai atuar ativamente no cenário, e a realização do contrato de confidencialidade. Após, ocorre o briefing, que é o momento de fazer a leitura da cena e o que vai acontecer nesta simulação, é uma descrição narrativa dos fatos11.
Após a execução do cenário ocorre o debriefing, que é um momento destinado à discussão dos acontecimentos, com o intuito de enriquecer o aprendizado tanto do participante, quanto do instrutor, de modo que os estudantes sejam guiados a refletir em seus acertos durante a simulação e nos possíveis pontos de melhoria, e, ainda, a participar ativamente do processo de aprendizagem. O debriefing deve ser cercado de confiança e é de extrema importância para atingir os objetivos do cenário proposto, visto que as informações são trocadas e assimiladas neste momento12.
Para definir os juízes que participariam da validação, utilizou-se uma adaptação dos critérios de Fehring, tendo em vista como principal fator de decisão sua formação acadêmica. Os juízes foram selecionados com base no perfil profissional, e a pontuação mínima para incluí-los no estudo foi 7, fazendo uso dos critérios adaptados a seguir: doutorado em enfermagem = 4; mestrado em enfermagem = 3; dissertação na área de enfermagem com foco em simulação = 2; artigos publicados em uma das áreas citadas = 1; prática assistencial ou docência em uma das áreas = 2 e especialização na área de enfermagem = 2. Esta seleção foi realizada pelo currículo dos pesquisadores, disponível na Plataforma Lattes, pelo portal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)13. Além disso, apesar de não estarem dentro dos mesmos critérios de seleção dos demais juízes, foram incluídos estudantes do curso de graduação em Enfermagem, também como juízes, dentro do mesmo processo de validação, tendo em vista a necessidade de obter a opinião do consumidor final do cenário simulado. O critério de inclusão dos estudantes foi estar no último período do curso, com a unidade curricular de gerenciamento já cursada. Foram excluídos os juízes que não atenderam aos critérios supracitados.
A primeira etapa da coleta de dados foi o contato com cada um dos juízes selecionados entre os meses de abril e julho de 2022, para apresentação do projeto e envio de convite formal, por meio de carta-convite encaminhada por e-mail, junto ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Após o aceite, os juízes avaliaram individualmente os itens utilizados no cenário proposto por meio de uma escala do tipo Likert, contendo cinco possibilidades de respostas: concordo totalmente (5), concordo parcialmente (4), nem concordo nem discordo (3), discordo parcialmente (2), discordo totalmente (1)14, através de um formulário eletrônico, criado no Google forms. Sendo assim, as rodadas foram realizadas concomitantemente à análise estatística em cada etapa, até que o consenso fosse obtido.
Para a validação do cenário, os itens foram avaliados pelos juízes por meio da escala Likert contendo os itens: concordo totalmente, concordo parcialmente, nem concordo e nem discordo, discordo parcialmente e discordo totalmente, além de um campo específico para envio de sugestões e/ou adaptações. Foi utilizada a técnica de Delphi, que consiste em buscar um consenso entre os juízes da temática abordada, utilizando questionários, no intuito de receber feedbacks controlados, de forma sistematizada. Este processo foi dividido em rodadas ou rounds, com a finalidade de, após diversas oportunidades de avaliar, chegue-se a uma concordância em relação ao objeto proposto15.
A amostra foi determinada pela fórmula de cálculo amostral, baseado em proporção. O tamanho foi calculado fundamentado na fórmula: N=Zα2 . P (1 - P) /e2. Onde n = tamanho da amostra; P = proporção dos juízes (85%); e = margem de erro (15%) e Zα = 1,96 (confiança desejada 95%), chegando ao número de 18 juízes após cálculo amostral14.
Utilizou-se a estatística descritiva, e o grau de concordância dos itens foi avaliado pelo Índice de Validade do Conteúdo (IVC), no qual foi considerada a soma de concordância dos itens concordo totalmente (5) e concordo parcialmente (4) assinalado pelos juízes14. A fórmula usada para avaliação de cada item foi: IVC número de respostas 5 ou 4 / número total de respostas. Os itens assinalados como nem concordo nem discordo (3), discordo parcialmente (2), e discordo totalmente (1), foram verificados pelos pesquisadores, e posteriormente enviados novamente aos juízes, no intuito de chegar ao consenso. O item com média igual ou superior a 0,80 (80%) foi considerado desejado na validação15.
O estudo foi apreciado e aprovado no ano de 2022 pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com parecer nº 5.289.966.
RESULTADOS
No início do mês de abril de 2022 foram convidados 18 potenciais participantes que atendiam aos critérios de seleção. Quinze dias após o envio do convite, oito juízes já haviam respondido, e, após o envio de um novo chamado, mais dois juízes responderam ao formulário, totalizando o número de dez participantes. Entre eles seis enfermeiros, uma biomédica e uma médica, todos com doutorado, e dois estudantes do último ano do curso de graduação em enfermagem.
O primeiro “round” ou “rodada” teve o resultado como mostra a Tabela 1, baseandose no Índice de Validade de Conteúdo (IVC) das respostas dos juízes diante do cenário apresentado.
Resultados do primeiro round de avaliação do cenário de simulação clínica. São Paulo, SP, Brasil, 2022
Mesmo atingindo o IVC > 80%, optou-se por realizar alterações no cenário proposto, tendo em vista a pertinência das contribuições dos participantes do estudo. Neste sentido, o título do cenário e o objetivo geral do programa foram alterados, pois havia a necessidade de mais especificidade. Os objetivos de aprendizagem específicos foram modificados no intuito de trazer à realidade o que de fato pode ser alcançado com este cenário, o briefing passou a ser único para o voluntário (estagiário de enfermagem) e para os demais espectadores. Seguidamente, foram contempladas as etapas de pré-simulação, com objetivo de sensibilizar o estudante para a temática, e o pré-briefing, para realizar o reconhecimento do cenário, além da redução do tempo de debriefing, diminuindo as chances de dispersão dos participantes, e os tópicos do debriefing foram construídos para estimular a discussão, reforçar pontos positivos e aqueles que poderiam ser melhores, atendendo aos objetivos propostos.
A partir deste novo cenário, um segundo “round” ou “rodada” foi realizado, e os participantes tiveram trinta dias para responder o formulário enviado. A Tabela 2 explicita os resultados desta nova etapa.
Resultados do segundo round de avaliação do cenário de simulação clínica. São Paulo, SP, Brasil, 2022
Neste segundo “round”, oito juízes contribuíram, e dois itens não atingiram o IVC >80%, por isso, houve a necessidade e a coerência em acatar as sugestões dos experts, que foram de reduzir o tempo de briefing e pré-briefing, acrescentar a informação de que o técnico de enfermagem do cenário será um ator, e construir questões para conduzir o debriefing caso os assuntos não tenham sido explorados. Neste sentido, houve a realização de um terceiro “round”, na busca pelo alinhamento das informações com o objetivo proposto.
No terceiro e último “round” sete juízes participaram, e foi atingido IVC de 100% em todos os itens avaliados, com sugestões enviadas, que não comprometem a qualidade do cenário, e que poderiam ou não ser acatadas, segundo a avaliação dos especialistas. Neste sentido, o cenário foi considerado validado e apto para ser aplicado aos estudantes do curso de graduação em enfermagem, conforme o protocolo estabelecido seguindo a metodologia proposta. O Quadro 1 contempla as fases do cenário de simulação e é fruto do processo de validação:
DISCUSSÃO
O conflito gera impacto na qualidade da assistência ao paciente e, por isso, precisa ser minimizado nos serviços de saúde. A convivência e as relações humanas saudáveis no ambiente de prática da equipe de enfermagem dependem da qualidade da gestão de conflitos do profissional enfermeiro, que deve ter um treinamento adequado para tornar este ambiente agradável para os colaboradores e pacientes16.
Um estudo realizado em 2018 com docentes do curso de graduação em enfermagem revelou que existe um déficit no ensino voltado para as questões gerenciais na formação do enfermeiro, mantendo o foco do ensino para a assistência de enfermagem. Tal deficiência no processo de aprendizagem deste conhecimento é percebida no início da trajetória profissional. Neste contexto, a qualidade da assistência prestada é impactada pela fragilidade no desenvolvimento de competências gerenciais na graduação e está relacionada, entre outros aspectos, com a falta de qualificação gerencial dos profissionais inseridos no serviço17. Neste sentido, estratégias de ensino inovadoras e metodologias participativas como a simulação clínica auxiliam na formação de profissionais qualificados e preparados para as demandas do ambiente laboral16.
Isto posto, estudo afirma ser necessário sair do modelo de transmissão de conhecimento de forma vertical, para uma forma que determine o conhecimento como uma troca entre o educador e o educando, enfatizando a necessidade de autonomia e corresponsabilidade do sujeito, tornando-se participante ativo no processo de aprendizado18. Estudiosos da área da educação reforçam que o estudante deve aprender a partir de um conteúdo que seja significativo para ele, ou seja, que faça parte do seu universo social, cultural e educacional, presentes no seu dia a dia19.
Em uma pesquisa realizada com o objetivo de identificar os ganhos percebidos por estudantes e profissionais utilizando a simulação clínica com recursos da dramatização, observou-se que houve melhora de conhecimento, comunicação, capacidade de empatia, desenvolvimento do relacionamento interpessoal, diminuição dos níveis de estresse e ansiedade, percepção de um ambiente mais favorável ao processo de ensino-aprendizagem, além de maior motivação para experimentar novos aprendizados20.
No que diz respeito à literatura internacional, os estudos mostram o mesmo contexto, no qual a simulação é inserida como uma oportunidade de aprendizado com melhor absorção, que aproxima o estudante da realidade e que torna este processo mais prazeroso21-22. Neste sentido, no processo de construção do cenário de simulação clínica para o desenvolvimento de competência para gestão de conflitos, lançou-se mão de manuais nacionais e internacionais que versam sobre simulação clínica e abordam roteiros esquemáticos, facilitando este momento. O cenário deve estar fundamentado nos objetivos iniciais propostos, e as demais etapas devem pretender o aprendizado facilitado e aprimorado do participante do cenário de simulação20.
Ao construir um cenário de simulação clínica, existe a necessidade de validá-lo para que ele possa ser aplicado em diversos ambientes, situações e participantes. Neste sentido, pesquisadores têm lançado mão da técnica de Delphi, na qual realiza-se o convite a juízes da área de simulação ou da temática do cenário, que, em sucessivas rodadas, buscam o consenso entre eles, de modo que nenhum participante tem acesso à resposta do outro. A partir disso, as respostas são analisadas e aceitas partindo do Índice de Validade de Conteúdo (IVC) de 80%. Alguns estudos sugerem que entre 5 e 12 experts são números expressivos e que atendem o objetivo proposto13,23-24.
O método de seleção dos juízes difere entre alguns artigos encontrados, como é o caso de um artigo realizado com o objetivo de validar um cenário de simulação realística para a avaliação e tratamento de Lesão por Pressão. Foi utilizada a técnica “bola de neve” ou “snowball technique”, na qual um juiz é convidado a participar e indica outros que, em uma cadeia de indicações, fornecem bons resultados qualitativos e quantitativos de participantes para a pesquisa19,22-23.
Este método pode ser empregado em cenários de simulação clínica como em Hemorragia Pós-parto, avaliação e tratamento de Lesão por Pressão, e em situações comportamentais, tanto quanto no gerenciamento de conflitos, objeto deste estudo19,22-23.
No primeiro round do processo de validação do cenário, um dos itens que não obteve o IVC pretendido foi o “objetivo geral do programa”, e por isso, houve a necessidade de reformulação e de adaptação conforme sugestões dos juízes e de achados na literatura, que abordam este tópico como dependente da complexidade e do tempo pré-determinados para a execução do cenário24.
Este estudo teve como limitações o extenso período de tempo que os participantes necessitaram para responder ao instrumento de validação e a subjetividade na escolha das contribuições pertinentes para o estudo. Não ter uma rubrica do estudante, contemplando o que é esperado dele na participação do cenário, além de não haver pré-teste e ser circunscrito a graduandos de enfermagem são também limitações, que poderão ser desenvolvidas em outros estudos no futuro.
CONCLUSÃO
O cenário construído foi validado e contribuirá para o ensino prático desta competência na graduação, pois aproximará o estudante de ambientes semelhantes à realidade que encontrará em sua prática profissional. Neste sentido, o uso de cenários simulados durante a graduação corrobora com o desenvolvimento de competências que dialogam com o ambiente laboral. As competências gerenciais, quando desenvolvidas na graduação, compactuam com a prática assistencial segura e de qualidade, com relações interprofissionais mais harmônicas e organizações eficientes. No entanto, novos estudos deverão ser realizados com o objetivo de testar o cenário e sua eficácia na aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes pelos estudantes do curso de graduação em enfermagem.
AGRADECIMENTOS
Este estudo foi financiado pelo edital número 2021/09084-9 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a qual agradecemos.
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