Open-access Indicadores de qualidade para gestão de centros e laboratórios de simulação clínica: revisão de escopo

Objetivo:   mapear na literatura os indicadores de qualidade para gestão de centros e laboratórios de simulação clínica.

Método:  revisão de escopo conduzida conforme diretrizes do JBI e da extensão Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses for Scoping Reviews. Realizaram-se buscas sobre indicadores de qualidade para gestão de centros/laboratórios de simulação clínica, publicados desde 1990, em quatro fontes de informação e no Google Scholar, sem restrição de método, idioma ou origem. Os dados foram extraídos após agrupamento temático e categorizados segundo a tríade Estrutura, Processo e Resultado, preconizada por Donabedian, correlacionando-os com os padrões de melhores práticas da International Nursing Association for Clinical Simulation and Learning.

Resultados:   dos seis estudos selecionados, entre 2013 e 2024, foram mapeados oitenta e quatro indicadores de qualidade. Apesar do elevado número de indicadores, estes não são plenamente aplicáveis à avaliação dos processos gerenciais dos centros/laboratórios de simulação clínica. Planejamento, organização de recursos, capacitação da equipe, gerenciamento de insumos, manutenção de equipamentos e monitoramento contínuo ainda são incipientes na literatura.

Conclusão:  recomenda-se em investigações futuras a validação de indicadores de processos gerenciais dos centros/laboratórios de simulação clínica, considerando suas particularidades e desafios operacionais, objetivando a qualificação contínua dos espaços de ensino-aprendizagem em saúde.

Descritores:
Treinamento por simulação; Indicadores de Gestão; Indicadores de Qualidade em Assistência à Saúde; Garantia da Qualidade dos Cuidados de Saúde; Organização e Administração; Gestão em Saúde


Destaques:

(1) Identificados 84 indicadores de qualidade para gestão de centros de simulação clínica. (2) Os indicadores de avaliação ainda são pouco aplicáveis aos processos gerenciais (3) Predominio de indicadores pedagógicos sobre gerenciais. (4) Subsídios para estruturação de indicadores específicos para avaliação gerencial. (5) Necessidade de validação de indicadores gerenciais em centros de simulação clínica.

Objective:   to map quality indicators for the management of clinical simulation centers and laboratories in the literature.

Method:  scoping review conducted according to JBI guidelines and the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses for Scoping Reviews extension. Searches were conducted for quality indicators for the management of clinical simulation centers/laboratories published since 1990, across four information sources and on Google Scholar, without restriction on method, language, or origin. The data were extracted after thematic grouping and categorized according to the Structure, Process, and Outcome triad recommended by Donabedian, and correlated with the best-practice standards of the International Nursing Association for Clinical Simulation and Learning.

Results:   of the six studies selected between 2013 and 2024, eighty-four quality indicators were mapped. Despite the high number of indicators, they are not fully applicable to the evaluation of management processes in clinical simulation centers/laboratories. Planning, resource organization, staff training, supply management, equipment maintenance, and continuous monitoring remain underdeveloped in the literature.

Conclusion:  it is recommended that future research propose and validate indicators of management processes in clinical simulation centers/laboratories, considering their particularities and operational challenges, with the aim of continuously improving teaching and learning spaces in health.

Descriptors:
Simulation Training; Management Indicators; Quality Indicators, Health Care; Quality Assurance, Health Care; Organization and Administration; Health Management


Highlights:

(1) 84 quality indicators identified for the management of clinical simulation centers. (2) Evaluation indicators are still not very applicable to management processes. (3) Predominance of pedagogical indicators over managerial ones. (4) Subsidies for structuring specific indicators for managerial evaluation. (5) Need for validation of managerial indicators in clinical simulation centers.

Objetivo:   mapear em la literatura los indicadores de calidad para la gestión de centros y laboratorios de simulación clínica.

Método:  revisión de alcance realizada conforme a las directrices del JBI e la extensión Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses for Scoping Reviews. Se realizaron búsquedas sobre indicadores de calidad para la gestión de centros/laboratorios de simulación clínica, publicados desde 1990, en cuatro fuentes de información y en Google Scholar, sin restricciones de método, idioma u origen. Los datos se extrajeron tras agrupaciones temáticas y se categorizaron según la tríada Estructura, Proceso y Resultado, recomendada por Donabedian, correlacionándolos con los estándares de buenas prácticas de la International Nursing Association for Clinical Simulation and Learning.

Resultados:   de los seis estudios seleccionados, entre 2013 y 2024 se mapearon ochenta y cuatro indicadores de calidad. A pesar del alto número de indicadores, no son completamente aplicables a la evaluación de los procesos de gestión de los centros/laboratorios de simulación clínica. La planificación, organización de recursos, formación de equipos, gestión de insumos, mantenimiento de equipos y monitorización continua aún están en fase incipiente en la literatura.

Conclusión:  se recomienda que futuras investigaciones propongan y validen indicadores de los procesos de gestión de los centros/laboratorios de simulación clínica, considerando sus particularidades y desafíos operativos, con el objetivo de la cualificación continua de los espacios de enseñanza-aprendizaje en salud.

Descriptores:
Entrenamiento Simulado; Indicadores de Gestión; Indicadores de Calidad de la Atención de Salud; Garantía de la Calidad de Atención de Salud; Organización y Administración; Gestión en Salud


Destacados:

(1) Se identificaron 84 indicadores de calidad para la gestión de centros de simulación clínica. (2) Los indicadores de evaluación aún no son del todo aplicables a los procesos de gestión. (3) Predominio de los indicadores pedagógicos sobre los de gestión. (4) Subvenciones para la estructuración de indicadores específicos para la evaluación de la gestión. (5) Necesidad de validar los indicadores de gestión en los centros de simulación clínica.

Introdução

A simulação clínica se consolidou como uma ferramenta para o ensino e a capacitação de alunos/profissionais da saúde. Trata-se de uma técnica que cria uma situação ou ambiente simulado para permitir que os profissionais de saúde experimentem a representação de um evento real, possibilitando a prática, o aprendizado, a avaliação, teste ou compreensão de sistemas ou ações humanas. Além dos benefícios diretos para a educação e o treinamento de alunos/profissionais de saúde, a simulação clínica também favorece a otimização dos sistemas de saúde, melhorando a assistência prestada e contribuindo para a segurança do paciente1.

O uso da simulação na educação em saúde teve início no século XVIII, com manequins anatômicos voltados ao ensino de obstetrícia na França; obteve, porém, maior impulso a partir da década de 1950, com o desenvolvimento de simuladores eletrônicos de baixa e alta fidelidade que permitem reproduzir funções fisiológicas, responder aos medicamentos e ensinar o manejo básico das vias aéreas2-3. Nas décadas seguintes, o avanço tecnológico resultou em simuladores cada vez mais sofisticados, transformando a formação em saúde e estimulando a criação de centros e laboratórios de simulação; contudo, o elevado custo de equipamentos e softwares especializados permanece um desafio para instituições com recursos limitados4.

Diante desse cenário, é necessário considerar que a implementação de um programa de simulação requer um investimento significativo de recursos materiais e humanos, além de tempo. Isso deve ser reconhecido e cuidadosamente considerado antes do início de um programa de simulação por meio de uma análise de custo-efetividade baseada nos possíveis benefícios na prática clínica, além dos desfechos dos pacientes. Assim, a eficácia por si só não justifica os altos investimentos, sendo imprescindível analisar também a eficiência, ou seja, o quanto de valor é gerado em relação ao custo empregado5.

Diante da expansão dos centros/laboratórios de simulação clínica nas instituições de ensino e nos serviços de saúde, torna-se imprescindível que esses ambientes sejam gerenciados de forma eficaz, de modo a assegurar sua relevância no processo educacional e seu impacto positivo na formação profissional. Para tanto, é fundamental que a gestão desses espaços incorpore, entre outras estratégias, o desenvolvimento e a utilização de indicadores de qualidade, que permitam monitorar e avaliar seu funcionamento, desempenho e contribuição para o aprimoramento do ensino6.

O uso de indicadores de qualidade tem se consolidado como uma prática recorrente na administração dos serviços de saúde, uma vez que possibilita tanto a avaliação dos resultados quanto a melhoria contínua das atividades pedagógicas e operacionais7. No âmbito dos centros/laboratórios de simulação, é importante que esses indicadores abranjam elementos relacionados à estrutura, aos processos e aos resultados, contemplando aspectos como a infraestrutura disponível, a formação dos instrutores, as metodologias adotadas e os resultados observados na aprendizagem dos alunos/profissionais de saúde.

Indicadores de qualidade, sejam eles qualitativos, sejam quantitativos, são imprescindíveis no apoio à tomada de decisões estratégicas. A sua seleção e utilização devem ser cuidadosamente planejadas, ao considerar as especificidades dos centros e laboratórios de simulação clínica, os requisitos relacionados à acreditação e os objetivos estratégicos previamente definidos8.

Acredita-se que a crescente implementação de centros/laboratórios de simulação clínica demanda uma gestão eficiente e baseada em evidências. No entanto, a literatura carece de estudos que abordem indicadores específicos relacionados aos processos gerenciais desses ambientes. A carência desses parâmetros compromete a avaliação da eficiência e a melhoria contínua. Este estudo justifica-se pela necessidade de mapear indicadores de qualidade aplicáveis à gestão de centros/laboratórios de simulação clínica, contribuindo para sua sustentabilidade, alinhamento estratégico e qualificação das práticas educacionais. Diante deste contexto, o objetivo deste estudo foi mapear na literatura os indicadores de qualidade para gestão de centros e laboratórios de simulação clínica.

Método

Tipo de revisão

Esta revisão de escopo segue as diretrizes e recomendações do manual do JBI e as orientações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)9-10.

Este formato de revisão permite mapear e reunir uma grande diversidade de materiais relacionados a um tema específico, oferecendo uma compreensão ampla do assunto. Também possibilita a consideração de estudos com variados níveis de evidência e diferentes métodos, incluindo fontes de informação e literatura cinzenta. Contudo, não se destina a realizar avaliação crítica, nem análise do risco de viés ou hierarquização dos níveis de evidência9.

Para garantir a confiabilidade e a lisura do processo de revisão, o protocolo foi registrado no Open Science Framework (https://doi.org/10.17605/OSF.IO/6AGBE).

Critérios de elegibilidade

Nesta revisão, foram incluídos estudos originais cujos objetos abordaram indicadores de qualidade para a gestão de centros/laboratórios de simulação clínica. Foram considerados os estudos publicados a partir de 1990, considerando que este foi o período de maior desenvolvimento da simulação clínica. Não houve restrição quanto ao tipo de delineamento metodológico, idioma ou ao país de origem dos estudos, sendo incluídas as publicações que atenderam à pergunta de pesquisa e aos critérios de inclusão definidos com base na estratégia mnemônica População - Contexto - Conceito (PCC), aplicada em revisões de escopo. Foram excluídos os estudos sem adesão ao tema, estudos que não atenderam integralmente aos componentes PCC estabelecidos e publicações duplicadas entre as bases de dados.

Conforme as diretrizes do manual do JBI, o mnemônico PCC deve seguir o padrão de referência (População, Conceito e Contexto) relevante para definição do título claro e essa definição precisa aparecer de forma idêntica no objetivo, pergunta de pesquisa e critérios de inclusão. Neste estudo, População = centros/laboratórios de simulação clínica; Conceito = indicadores de qualidade/gestão; Contexto = gestão e monitoramento desses centros. Assim, a pergunta de revisão estabelecida foi: Quais são os indicadores de qualidade necessários para a gestão de centros/laboratórios de simulação clínica?

Fontes de informação

A busca por artigos foi realizada em fontes de informação de literatura científica, incluindo o Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) via PubMed, o Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), a Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e a Scopus. Além disso, o Google Scholar foi utilizado para a busca de teses e dissertações (literatura cinzenta), como também a lista de referências.

Estratégias de busca

As estratégias de busca foram desenvolvidas pelo autor principal, em conjunto com seu orientador e com o suporte de um bibliotecário especializado na construção de estratégias de busca para revisões de escopo. Para garantir a adequação dos termos e fontes, foi realizada uma consulta preliminar em 15 de agosto de 2024.

A estratégia de busca foi conduzida associando descritores e termos livres sinônimos correspondentes aos elementos do acrônimo PCC, com o objetivo de identificar evidências científicas que respondam à questão de pesquisa deste estudo. Para a seleção dos termos, foram consultados os vocabulários controlados da área da saúde, incluindo os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e oMedical Subject Headings (MeSH).

Foram incluídos os estudos publicados a partir de 1990, considerando que este foi o período de maior desenvolvimento da simulação clínica. Não foram aplicados filtros quanto ao idioma ou desenho do estudo, garantindo uma busca ampla e abrangente. Além disso, as estratégias de busca foram elaboradas seguindo as diretrizes do Peer Review of Electronic Search Strategies (PRESS), assegurando a qualidade e a rigorosidade do processo.

As estratégias de busca foram desenvolvidas a partir de uma busca preliminar, seguida da análise dos títulos, resumos e palavras-chave dos estudos recuperados, o que possibilitou o refinamento e a seleção dos termos relacionados aos indicadores de qualidade em saúde e ao treinamento baseado em simulação. Para responder à pergunta de revisão, foram utilizadas combinações dos descritores “Quality Indicators, Health Care” e “Quality Assurance, Health Care”, bem como termos livres e descritores controlados associados à simulação clínica e ao treinamento por simulação. As buscas foram estruturadas com o uso de operadores booleanos e adaptadas às especificidades técnicas de cada base de dados, incluindo variações linguísticas quando pertinente, conforme apresentado na Figura 1.

Figura 1
Estratégias de busca nas bases de dados pesquisadas. Niterói, RJ, Brasil, 2025

Seleção dos estudos

Para a seleção dos estudos, todas as referências bibliográficas identificadas por meio das estratégias de busca nas bases e fontes de dados foram exportadas para o Rayyan®, onde as duplicatas foram eliminadas. Foram incluídos os estudos primários que abordaram a gestão de centros/laboratórios de simulação clínica e seus indicadores.

Inicialmente, dois revisores realizaram, de forma anônima e independente, a leitura dos títulos e resumos para verificar a elegibilidade dos estudos com base nos critérios de inclusão definidos, garantindo que atenderiam à proposta do estudo.

Na segunda fase, os revisores realizaram a leitura completa dos artigos selecionados, para confirmação dos critérios de inclusão. As discordâncias foram resolvidas por consenso ou com a presença de um terceiro pesquisador para avaliação.

Extração de dados

O processo de extração de dados foi conduzido pela equipe de pesquisadores, utilizando um instrumento de coleta de dados alinhado com o mnemônico PCC e com a pergunta de revisão proposta. É importante destacar que esse instrumento é fornecido pelo manual da JBI e pode ser adaptado conforme as necessidades dos autores do estudo9,11.

Com base no mnemônico PCC e com a finalidade de responder à pergunta de revisão, foi desenvolvido um instrumento de extração de dados que consiste em um formulário estruturado na plataforma Google Forms © para identificar e descrever os seguintes itens: título, objetivo, ano de publicação, tipo de estudo, país, objeto de pesquisa, questão de pesquisa e indicadores de qualidade que pudessem ser aplicados à gestão de centros/laboratórios de simulação clínica, separando-os segundo as dimensões estrutura, processos e resultados.

Separação, sumarização e relatório dos resultados

Os dados foram coletados a partir de estudos selecionados, destacando a relação desses estudos com os indicadores de qualidade para a gestão de centros/laboratórios de simulação. A extração dos dados permitiu mapear, interpretar e realizar a análise da extensão, natureza e distribuição dos estudos incluídos na revisão. Em seguida, foram realizados o agrupamento temático e categorizados segundo a tríade clássica Estrutura, Processo e Resultado preconizada por Donabedian7.

Para o estudo proposto, a estrutura refere-se aos padrões de melhores práticas em simulação: pré-briefing (preparação e briefing); operações; integridade profissional; design da simulação; desenvolvimento profissional e facilitação. No processo, analisam-se: design da simulação; pré-briefing (preparação e briefing); o processo do debriefing; facilitação; integridade profissional; simulação interprofissional continuada e avaliação da aprendizagem e de desempenho. O resultado relaciona-se aos padrões de avaliação da aprendizagem e desempenho, o processo de debriefing, resultados e objetivos, além do padrão de desenvolvimento profissional.

Também foi realizada a descrição estatística dos dados utilizando o Planilhas Google©, com o objetivo de fornecer uma visão geral do conjunto de materiais. Todo o procedimento de coleta de dados e seleção dos estudos foi sumarizado e apresentado nos resultados desta revisão, por meio do diagrama de fluxo PRISMA-ScR10.

Resultados

Um total de 698 estudos foram identificados a partir da consulta às fontes de informação e repositórios relevantes. Após a eliminação de registros duplicados, restaram 582 estudos para análise subsequente. Procedeu-se à avaliação desses estudos por meio da leitura de seus títulos e resumos, com o objetivo de excluir aqueles que não se enquadravam na temática investigada. Essa triagem resultou na seleção de 20 estudos para avaliação integral do texto. Concluída a leitura completa, 17 estudos foram excluídos, sendo que 14 por apresentarem falta de alinhamento com o tema da revisão e 3 por não satisfazerem os critérios de inclusão predefinidos (Figura 2).

Figura 2
Fluxograma PRISMA-ScR de identificação dos estudos. Niterói, RJ, Brasil, 2025

Após o processo de seleção dos artigos identificados nas bases de dados e repositórios, a amostra desta revisão compreendeu seis estudos (n = 06), publicados no período de 2013 a 2024. Desta amostra final, 3 (n=03; 50%) estudos originaram-se das buscas sistemáticas realizadas, enquanto 3 (n=03; 50%) foram identificados por meio da lista de referências. Em relação ao formato, 5 (n=05; 83,33%) estudos eram artigos científicos e 1 (n=01; 16,67%), dissertação de mestrado. A limitada abordagem da temática da gestão em simulação, particularmente no que concerne aos indicadores de qualidade de centros/laboratórios de simulação clínica, tornou-se evidente diante do reduzido número de trabalhos encontrados, mesmo após a aplicação de um recorte temporal abrangente.

A Figura 3 mostra os dados mais relevantes de cada artigo segundo o autor, ano/pais/idioma, tipo e objetivo do estudo.

Quanto à formação dos autores, observa-se que quatro publicações foram produzidas por enfermeiros e duas por cirurgiões-dentistas. Todos os estudos constituem pesquisas primárias.

Os únicos recursos informacionais que retornaram títulos para revisão e análise foram a PubMed (três artigos) e Google Scholar (dois artigos e uma dissertação de mestrado). Os indicadores de qualidade provenientes destes estudos foram organizados e correlacionados com os padrões de melhores práticas da International Nursing Association for Clinical Simulation and Learning (INACSL)18. Em seguida, os indicadores foram categorizados segundo o modelo teórico de avaliação da qualidade em saúde proposto por Donabedian, nas dimensões estrutura, processo e resultado, amplamente utilizado na análise da qualidade dos serviços de saúde, o que permitiu uma abordagem sistemática dos indicadores identificados (Figura 4).

Figura 3
Descrição dos estudos incluídos na revisão de escopo segundo o autor, ano/pais/idioma, tipo e objetivo do estudo. Niterói, RJ, Brasil, 2025

Figura 4
Indicadores de qualidade de simulação clínica segundo a tríade estrutura, processo e resultados de Donabedian7 e os padrões de melhores práticas em simulação da INACSL18. Niterói, RJ, Brasil, 2025

Indicadores de estrutura

Nesta categoria, foram mapeados 27 indicadores, fundamentados principalmente nos padrões de operações, integridade profissional e design da simulação20-22. O padrão “Design da Simulação” foi o mais expressivo, concentrando métricas voltadas à tecnologia, fidelidade ambiental e realismo cenográfico12-14,16-17. Destaca-se que a maioria desses indicadores busca assegurar que a infraestrutura física e tecnológica esteja alinhada aos objetivos pedagógicos, com ênfase na preparação do ambiente e da equipe de facilitação.

Indicadores de processo

Essa categoria abrange 45 indicadores subdivididos nos seguintes padrões de melhores práticas: design da simulação; pré-briefing (preparação e briefing); o processo do debriefing; facilitação; integridade profissional; simulação interprofissional continuada e avaliação da aprendizagem e do desempenho19,21-22,24-27.

A análise revela uma forte concentração em aspectos da prática pedagógica, como o alinhamento curricular, a condução do debriefing e a performance do participante simulado13-17. Observou-se que os indicadores de processo priorizam a interação entre facilitador e aluno, a consistência das simulações e a avaliação da prontidão do estudante, refletindo uma preocupação com a integridade da experiência de aprendizagem.

Indicadores de resultado

Foram identificados 12 indicadores nesta dimensão, com foco predominante no padrão de avaliação da aprendizagem e desempenho27. Os pontos mais relevantes incluem a mensuração da melhoria no desempenho clínico pós-simulação, o índice de satisfação (NPS) dos usuários e a efetividade da reflexão alcançada no debriefing12. Nota-se que os resultados são majoritariamente voltados para o desfecho do aprendizado e para a capacitação contínua da equipe responsável pela simulação.

Discussão

Esta revisão de escopo teve como objetivo mapear na literatura os indicadores de qualidade para gestão de centros/laboratórios de simulação clínica. A análise dos seis estudos incluídos permitiu identificar um conjunto diversificado de indicadores, os quais foram categorizados segundo a tríade clássica de Donabedian - Estrutura, Processo e Resultado7 -e correlacionados com os padrões de melhores práticas da INACSL18.

Ao analisar os estudos incluídos nesta revisão, destaca-se que parte das publicações apresenta uma continuidade metodológica e conceitual. As pesquisas desenvolvidas mostraram sua natureza aplicada, ao utilizarem indicadores previamente definidos16-17, além de aprofundarem e operacionalizarem os conceitos propostos, o que indica uma trajetória de amadurecimento teórico sobre a fidelidade na simulação clínica13-14.

A comparação entre os indicadores mapeados neste estudo evidencia uma lacuna substancial no que se refere à abordagem dos processos gerenciais dos centros/laboratórios de simulação clínica. Apesar de elementos como fidelidade, realismo, design pedagógico e estrutura física dos ambientes simulados serem importantes e amplamente contemplados nos estudos selecionados13-17, observa-se que a maioria das produções prioriza aspectos vinculados à prática pedagógica da simulação, deixando de abordar adequadamente os componentes administrativos e operacionais que sustentam o funcionamento dos centros/laboratórios de simulação clínica.

Dessa forma, evidenciou-se que, apesar do grande número de indicadores identificados, estes não representam um conjunto aplicável diretamente à avaliação plena dos processos gerenciais dos centros/laboratórios de simulação clínica, objeto do presente estudo. Acredita-se que questões como planejamento, organização de recursos, capacitação da equipe, gerenciamento de insumos, manutenção de equipamentos, definição de metas e monitoramento contínuo ainda são abordadas de forma incipiente em artigos científicos. Essa ausência pode comprometer a capacidade de aferição da qualidade dos processos gerenciais, limitando o uso dos indicadores como ferramenta de gestão estratégica.

Um estudo elaborou e validou, com auxílio de especialistas, diversos indicadores de qualidade elencados em quatro domínios, denominados respectivamente como “princípios pedagógicos”, “preparação do estudante”, “fidelidade” e “debriefing16. Esses indicadores são adequados para mensurar a qualidade do aspecto pedagógico e a implementação da metodologia de acordo com recomendações abordadas pelos padrões da INACSL18. Entretanto, compreende-se que ainda abordam de forma pouco objetiva a gestão de centros/laboratórios de simulação clínica.

Os indicadores de gestão representam não apenas uma exigência para a mensuração do desempenho, mas também uma ferramenta estratégica para a manutenção do programa de simulação. Além disso, os processos de acreditação de programas de simulação têm exigido cada vez mais a apresentação de métricas consolidadas que atestem a efetividade das práticas pedagógicas e gerenciais29.

O processo de acreditação da Society for Simulation in Healthcare (SSH) exige que os centros/laboratórios de simulação clínica demonstrem excelência em áreas como governança, sustentabilidade financeira, recursos humanos e gestão de instalações30.

Por outro lado, uma pesquisa apresentou indicadores nos domínios da “avaliação do estudante como paciente simulado” e da ‟avaliação enquanto avaliador”, contemplando métricas como ‟Consistência em cada performance”, ‟Desenvolvimento do enredo do roteiro”, ‟Imitação de tom/entoação, expressões e posturas” e ‟Clareza e fluência na expressão”15. Embora esses indicadores não tratem especificamente dos processos gerenciais de centros/laboratórios de simulação clínica, acredita-se que podem ser considerados pelos gestores como Indicadores-Chave de Desempenho (Key Performance Indicators - KPIs), a depender dos objetivos institucionais e do estágio de desenvolvimento do programa de simulação.

Um KPI na área da saúde corresponde a uma métrica objetiva empregada para acompanhar, avaliar, aprimorar, controlar e promover mudanças nos processos assistenciais, com o propósito de assegurar a eficácia, a qualidade e a eficiência dos serviços, bem como elevar a satisfação de pacientes e profissionais de saúde31. Entende-se que os KPIs em programas de simulação clínica devem auxiliar os gestores na análise de dados de treinamento e na organização das atividades do centro/laboratório de simulação clínica.

Seguindo essa linha de raciocínio, identificou-se um conjunto de indicadores voltados ao planejamento e à estruturação das práticas de simulação, organizados em domínios como “fidelidade conceitual”, “fidelidade física”, “fidelidade emocional”, “participante simulado”, “cenografia” e “simulador”. Dentre os diversos indicadores destacados pelos autores, predominam aqueles relacionados ao realismo cenográfico (como mobiliário fixo, efeitos sonoros, odores, iluminação), ao realismo do simulador humanoide (características físicas, vestimentas, tato, voz, moulage), à interpretação do participante simulado (abrangendo caracterização conceitual e emocional, improvisação e interação com o aluno), além dos aspectos de realismo alcançado e realismo percebido13-14.

Embora tais métricas sejam fundamentais para avaliar o realismo, podendo auxiliar a efetividade do ensino baseado em simulação e verificar o alcance dos objetivos educacionais propostos, entende-se que não contemplam diretamente os processos gerenciais dos centros/laboratórios de simulação clínica. Ainda assim, podem oferecer subsídios relevantes que permitam extrapolações ou reflexões aplicáveis à gestão desses ambientes.

Nesse contexto, pesquisadores ressaltam o papel dos centros/laboratórios de simulação clínica como estruturas que articulam a universidade, o sistema de saúde e a gestão pública. Os autores reforçam a relevância da integração entre gestão, ensino e serviço, bem como a necessidade de avaliar, com base em evidências, o impacto do uso da simulação na formação profissional e na qualidade da assistência em saúde32.

Dessa forma, compreende-se que mesmo os indicadores que não abordam diretamente os aspectos gerenciais dos centros/laboratórios de simulação clínica podem subsidiar estratégias de gestão nesses ambientes. O estudo ainda propõe a seguinte indagação: “quais indicadores podem auxiliar na averiguação dos efeitos da simulação sobre a formação e os serviços?”, evidenciando, assim, uma lacuna na literatura que merece ser explorada32.

Este achado parece apontar para uma dicotomia entre indicadores de ensino-aprendizagem e gerenciais. Na verdade, embora sejam complementares, acredita-se que os processos de planejamento, operação, sustentabilidade, logística, capacitação da equipe, manutenção de equipamentos e análise de resultados institucionais demandam indicadores próprios, que vão além da avaliação do desempenho dos discentes.

Alguns estudos apresentaram uma abordagem mais alinhada ao escopo desta revisão, ao propor indicadores organizados nos domínios de “infraestrutura”, “recursos tecnológicos”, “princípios pedagógicos” e “preparação dos envolvidos”16-17. Com base nessa estrutura, entende-se que indicadores como a “tecnologia alinhada aos objetivos”, “Equipamentos e prontuários realistas”, “Matriz curricular da simulação integrada”, “Materiais preparatórios disponíveis”, bem como “Objetivos de aprendizagem guiam o design da simulação”16-17, podem ser considerados, ainda que indiretamente, como componentes de processos gerenciais em centros/laboratórios de simulação clínica, contribuindo para a qualificação da gestão e para o alinhamento entre práticas pedagógicas e recursos institucionais.

Diante disso, é pertinente destacar que os Padrões de Melhores Práticas em Simulação em Saúde estabelecem diretrizes específicas para a operação de centros/laboratórios de simulação clínica. Acredita-se que tais diretrizes podem servir como referência para a formulação de indicadores de qualidade, abrangendo tanto a dimensão pedagógica quanto os aspectos relacionados à gestão desses espaços20.

O padrão “Operações”, estabelecido pela INACSL, destaca que “todos os programas de educação baseados em simulação requerem sistemas e infraestrutura para apoiar e manter as operações”20. Essa diretriz evidencia a importância de práticas organizacionais bem definidas para garantir a sustentabilidade e a qualidade das atividades desenvolvidas nos centros/laboratórios de simulação clínica.

Neste sentido, um estudo apresentou uma proposta de indicadores voltados diretamente à gestão de centros/laboratórios de simulação clínica, estruturados nos domínios de “estrutura”, “processo” e “resultados”. Entre os exemplos, é possível citar a “taxa de disponibilidade de recursos de simulação”, a “taxa de equipamentos de simulação avariados”, a “avaliação da segurança do ambiente de simulação”, “melhoria no desempenho clínico pós-simulação clínica”, além da “satisfação dos alunos/profissionais com a simulação clínica”12. No entanto, tais indicadores ainda demandam maior refinamento metodológico e validação por especialistas da área.

Considera-se que a construção e validação de indicadores consistentes e aplicáveis pode contribuir para a gestão dos centros/laboratórios de simulação clínica, favorecendo o controle organizacional, a melhoria contínua, a transparência institucional e o alinhamento com referenciais internacionais, como os propostos pela INACSL18. No entanto, a efetiva implementação desses indicadores pode enfrentar obstáculos, especialmente em função das particularidades e limitações de cada instituição.

Neste contexto, pode ainda ser ressaltado que a elaboração de um conjunto de políticas e procedimentos direcionados ao funcionamento dos centros/laboratórios de simulação clínica representa um desafio, demandando tempo e investimento de recursos. Entre os principais obstáculos estão: a carência de sistemas de informação eficientes para a coleta e análise de dados; a resistência institucional à adoção de mudanças e à implementação de novos mecanismos de monitoramento; a ausência de parâmetros comparativos consolidados (benchmarks) para avaliação de desempenho; as dificuldades em mensurar o impacto das práticas de gestão nos resultados educacionais; e a disparidade nos recursos disponíveis entre as instituições29.

Superar esses desafios demanda estratégias colaborativas e flexíveis, que considerem as especificidades de cada realidade institucional sobre a articulação entre gestão, ensino e serviço29,31. Nesse sentido, entende-se que, após a definição dos processos gerenciais - preferencialmente com base em benchmarks nacionais e internacionais -, é fundamental promover estudos relacionados à validação de indicadores específicos para a gestão de centros/laboratórios de simulação clínica.

Dentre os seis estudos incluídos na amostra desta pesquisa, observou-se que somente um se propôs a abordar especificamente a elaboração de indicadores para a gestão de centros/laboratórios de simulação clínica12. Porém, esses indicadores carecem de validação por especialistas.

Como limitações do estudo, destaca-se a incipiência da abordagem dos indicadores de qualidade em simulação clínica na literatura científica, especialmente no que se refere aos indicadores de processos gerenciais dos centros/laboratórios de simulação clínica. Além disso, os artigos analisados apresentam diversidade de contextos, objetivos e formatos metodológicos, o que dificultou a categorização e comparação direta dos indicadores.

Como implicações para o avanço do conhecimento científico na área de saúde e enfermagem, cabe destacar que o estudo oferece um panorama para que centros/laboratórios de simulação clínica e gestores em enfermagem possam estruturar critérios de avaliação dos programas de simulação baseados em indicadores, promovendo maior objetividade e padronização. Além disso, acredita-se que o fomento da discussão sobre a integração entre o planejamento pedagógico e a gestão em simulação pode embasar critérios institucionais, reforçando a cultura de qualidade e segurança no ensino da saúde.

Conclusão

O estudo mapeou a literatura científica sobre os indicadores de processos gerenciais em centros/laboratórios de simulação clínica, norteado pela pergunta de pesquisa: Quais indicadores de qualidade são necessários para a gestão de centros/laboratórios de simulação clínica?

Os resultados oferecem subsídios para que centros/laboratórios de simulação clínica possam estruturar critérios de avaliação baseados em indicadores, promover maior eficiência e alinhamento entre gestão e práticas educacionais e melhorar a comunicação. Não obstante, evidenciou-se uma lacuna significativa relacionada à definição e validação de indicadores, em particular, à gestão dos centros/laboratórios de simulação clínica. Constatou-se que, embora a temática seja fundamental para a sustentabilidade e a efetividade dos espaços formativos, a maioria das publicações concentra-se em aspectos pedagógicos da simulação, tais como realismo, design instrucional e avaliação discente, dedicando pouca atenção às dimensões administrativas e operacionais.

Diante desse cenário, destaca-se a necessidade de incentivar pesquisas metodológicas e aplicadas que possibilitem o desenvolvimento de indicadores específicos, validados e alinhados a padrões internacionais de qualidade e acreditação. Acredita-se que a construção de um sistema de indicadores voltado aos processos gerenciais pode contribuir para a promoção da transparência, o aumento da eficiência e o fortalecimento do alinhamento estratégico entre as práticas pedagógicas e a gestão institucional dos centros/laboratórios de simulação clínica.

Recomenda-se, portanto, que investigações futuras avancem na proposição e validação de indicadores de processos gerenciais dos centros/laboratórios de simulação clínica, considerando suas particularidades e os desafios inerentes à sua operação, com o objetivo de qualificar continuamente os espaços de ensino-aprendizagem em saúde.

Sugere-se ainda a realização de estudos quantitativos de avaliação da qualidade em simulação clínica, cujos resultados expostos podem facilitar a otimização de recursos, a tomada de decisões e o planejamento de práticas gerenciais concordantes com as reais necessidades do setor saúde.

Declaração de Disponibilidade de Dados:

Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado.

Referências bibliográficas

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  • Como citar este artigo:
    Santos ISN, Souza CJ, Hipolito RL, Oliveira MF, Ribeiro CB, Brites AS. Quality indicators for the management of clinical simulation centers and laboratories: a scoping review. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4906 [cited ano mês dia ]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.8215.4906

Editado por

  • Editora Associada:
    Maria Lúcia Zanetti

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    31 Jul 2025
  • Aceito
    07 Jan 2026
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